Copyright © 2026 Alessandro Marroque Sampaio
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio, seja eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem autorização prévia e por escrito da autora, exceto em casos permitidos por lei ou autorização do autor. Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
Título: Os Olhos de Amélia
AUTORIA PRINCIPAL: ALESSANDRO MARROQUE SAMPAIO
COAUTORIAS: GABRIEL ANGELO DE SOUZA, HENRIQUE MARTINS VIEIRA, JOAO ANTONIO MOREIRA ALMEIDA, KAILANY MARTINS, KAIO ANGELI COLOMBI, LUDMILLA PEREIRA MIGUEL DA SILVA, OTAVIO CANAL BRUMM, SAMUEL SANTOS ROCHA, VITOR RAMOS, ALINE FABRIS SILVA, BEATRIZ MARTINS SOUZA, JOAO GABRIEL FREISLEBEN DA SILVA, KAUAN ANGELO GASPAR, KETELY RIBEIRO FOLLE, LIVIA QUIUQUI BINS, MIGUEL PEREIRA KNAAK, ANA KAROLAINY PEREIRA DE SOUZA, CARLOS HUMBERTO SAMPAIO DUSSONI, ELISA GONCALVES DO NASCIMENTO, ELLEN MUTZ GOMES, EMANUELY PEREIRA DA SILVA, EMILLY MUTZ GOMES, GABRIEL DA SILVA, MAYSA ANIZEWSKI COUTINHO, KIMBELI RODRIGUES SILVA, MARIA GABRIELA DA SILVA BARBOSA, ANNY VITORIA CORREA SILVA, YASMIM, LORENZONI MIRANDA, BRUNA GABRIELLY KLITZKE, LARISSA MENEZES DE OLIVEIRA, LUANA RAIMUNDO LIMA, MARIA LUIZA MORAIS VENTURA EMILLY GOMES MACHADO, MAURÍCIO MAGNO E LUCIANA SARAPI PRATTI.
Ano: 2026
Local de publicação: São Gabriel da Palha, Espírito Santo.
Uma produção coletiva feita na instituição de ensino CEEFMTI "Governador Gerson Camata", São Gabriel da Palha, Espírito Santo. Turma de Eletiva | 2026
Revisão, Escrita, Diagramação: Alessandro Marroque Sampaio.Capa: Alessandro Marroque Sampaio
Ilustrações, Artes visuais, Personagens e História: Agradeçemos nossas coautorias que ajudaram em toda a parte criativa do nosso livro.
Contato: Marroquealessandro@gmail.com
SUMÁRIO
E dedicado para…
Para todas as mães que lutam em silêncio e nas sombras. Que o sacrifício de vocês nunca seja invisível. E para todos aqueles que provam que o verdadeiro poder não nasce do sangue ou de coroas, mas da coragem de amar.
PRÓLOGO
No ano de 1426, em uma noite fria e nebulosa, Hereford ouviu irromper na fina neblina que cobria suas colinas e ruas o choro do infante Edwin, o filho mais novo e segundo herdeiro da linhagem real. O vento uivava contra as vidraças e paredes de pedra, carregando consigo um gélido presságio.
No interior dos aposentos reais, o clima era tão denso quanto a névoa lá fora. A rainha Catharine debatia-se sobre os lençois, aos gritos, consumida pela dor do trabalho de parto em um quarto onde o frio parecia penetrar os ossos.
— Continue, Alteza, está quase lá! — encorajava a parteira da família real, com o rosto banhado em suor pela tensão do momento.
Os gritos de Catharine ecoavam pelo ambiente escuro. O esforço extremo drenava suas forças, e a exaustão começava a vencer sua consciência. Com um último e agonizante suspiro de força, o choro estridente de uma criança cortou o silêncio que ameaçava se instalar.
— Nasceu, Alteza Catharine! — a parteira exclamou, tomada por um alívio momentâneo ao segurar o bebê, que se mostrava forte e perfeitamente saudável.
No entanto, a resposta que aguardava não veio. A rainha tombara sobre os travesseiros, completamente inerte.
— Alteza? — chamou a parteira, o sorriso desaparecendo instantaneamente ao notar a palidez sepulcral no rosto da soberana.
— Chamem o médico! A rainha está desacordada!
O mordomo-chefe da família, que aguardava do lado de fora, ouviu o desespero na voz da mulher e saiu às pressas, seus passos rápidos ecoando pelos corredores escuros do castelo à procura do médico. Enquanto isso, choros de criança ecoavam pelo ambiente, um som de vida em um contraste brutal com o pânico crescente.
O rei invadiu os aposentos, com os olhos arregalados de pavor ao ver a esposa imóvel. O filho mais novo de 4 anos da rainha observa todo acontecimento espantado.
— Minha senhora! — exclamou o rei, caindo de joelhos ao lado do leito, profundamente preocupado com o estado de Catharine. Ele segurou sua mão fria, implorando por uma resposta que não veio.
Minutos agonizantes se passaram até que o médico irrompeu pelas pesadas portas, ofegante. Ele se aproximou do leito às pressas, afastando a parteira e examinando a situação. Seus olhos rapidamente encontraram a terrível realidade sob os lençois de linho.
A rainha apresentava um grande sangramento. – Disse o médico.
O médico trabalhou freneticamente, tentando estancar a terrível perda de sangue, mas a vida de Catharine esvaía-se a cada segundo. O quarto foi tomado por um silêncio angustiante, interrompido apenas pelo choro persistente do recém-nascido e pelos movimentos desesperados do doutor.
Após alguns momentos, as mãos do médico pararam. Ele abaixou a cabeça, a respiração pesada, e afastou-se lentamente do leito. Procurou o pulso da rainha uma última vez, apenas para confirmar o inevitável.
— Majestade... — começou o médico, com a voz embargada e o olhar voltado para o chão.
— Sinto muito. Ela já está sem sinais vitais e se encontra falecida.
O pranto do rei juntou-se ao choro de Edwin. Naquela noite fria e escura, a realeza saudou o nascimento de uma nova vida saudável, mas pagou o preço amargo da morte de sua rainha.
CAPÍTULO 1
UMA UNIÃO INSTÁVEL
A luz das velas tremulavam sobre as longas mesas do grande salão de Hereford. A atmosfera era sóbria e melancólica, o silêncio pesado das muralhas parecia engolir qualquer som do lado de fora.
O jantar daquela noite era silencioso, quase solene.Criados caminhavam cuidadosamente pelo salão, servindo carne assada, vinho e pães recém-saídos dos fornos, mas ninguém na mesa real parecia ter apetite para comer.
Entre os servos, quase passando despercebida, estava Amélia. Com seus quarenta e cinco anos, os cabelos pretos firmemente presos em um coque discreto e os olhos castanhos atentos , a empregada silenciosa observava cada movimento da família real, guardando para si os segredos que rondavam aquelas paredes de pedra.
Lá fora, uma fina neblina cobria as colinas de Hereford. Exatamente como naquela noite, vinte e quatro anos atrás.
No topo da mesa, o rei Phillip mantinha o olhar perdido em sua taça de prata. Homem de pele clara e feições marcadas pelo tempo, seus cabelos outrora escuros, que caiam ondulados até a altura da orelha, agora eram tomados pelo cinza.
Seus olhos azuis, que costumam refletir rigor e disciplina, transpareciam apenas a dor de uma perda irreparável. Seu olhar, porém, estava fixo em um único lugar: Edwin. O príncipe mais novo, agora com vinte e quatro anos, permanecia em silêncio, o prato intocado. Seus cabelos loiros e ondulados estavam bem arrumados, mas seus olhos azuis fugiam de qualquer contato.
Seus dedos apertavam o cálice com força enquanto a lembrança daquela data o consumia.
Vinte e quatro anos. Vinte e quatro anos desde que sua mãe, a rainha Catharine, havia morrido ao lhe dar a vida. A imagem daquela história lhe era familiar demais. Em sua mente, surgiam os fragmentos de uma lembrança que nem sequer podia possuir.
O quarto escuro. Os gritos de dor. O sangue. Seu pai chorando ao lado do leito. E então... silêncio.
Edwin baixou a cabeça. Por mais que todos tentassem convencê-lo do contrário, e apesar de jamais desejar prejudicar sua família, uma parte dele acreditava que carregava uma culpa impossível de apagar. Se ele não tivesse nascido, talvez aquela mulher de aura tão bondosa e gentil ainda estivesse ali.
— Não vai comer? — perguntou o rei Phillip, quebrando o silêncio.
Edwin ergueu o olhar. — Não estou com fome, pai. O rei conhecia aquele olhar.
O mesmo que via todos os anos. Tristeza. Culpa. Solidão.
Diferente do irmão, Edwin era impulsivo, guiado pelas emoções, e conhecido por seu coração bondoso. Desde pequeno, aprendera a esconder seus sentimentos atrás de sorrisos fáceis e simpatia, mas naquela noite não havia máscara alguma. A dor estava exposta.
O rei abriu a boca para dizer algo, mas outra voz surgiu, fria e cortante.
— Talvez ele não tenha apetite para as comemorações. Edward. O príncipe herdeiro estava sentado à direita do pai, completamente imóvel. Aos vinte e oito anos, sua postura rígida e impressionantes 1,88m de altura lhe davam uma aparência imponente e distante. Seus cabelos ondulados castanhos claros, quase cor de mel, contrastavam com a barba rala. Seus olhos azuis, frios como o inverno lá fora, fitavam o irmão mais novo. Os anos o transformaram em um homem calculista, ambicioso e obcecado pelo trono. Preferia planejar sozinho a socializar , mas aquela data despertava nele a única ferida que jamais cicatrizaria. Tinha apenas quatro anos quando perdeu a mãe. Lembrava-se dela cantando antes de dormir, das mãos afagando seus cabelos, do seu perfume. Por muito tempo, uma única ideia havia crescido no coração de Edward, alimentando rivalidades sombrias: sua mãe morrera porque Edwin nascera. O salão pareceu ficar ainda mais frio. — Edward… — advertiu o rei. Mas o príncipe não desviou o olhar manipulador. — É curioso, não é? — disse ele, em voz baixa. — Todos os anos fazemos este jantar em sua memória… e todos os anos somos lembrados do motivo de ela não estar aqui. Edwin ficou imóvel. As palavras atingiram seu peito como uma lâmina. Porque, no fundo, ele mesmo pensava aquilo. O rei levantou-se bruscamente, a cadeira arranhando a pedra do chão. — Já chega! O silêncio tomou conta do salão. Amélia, encolhida no canto próximo às tapeçarias, prendeu a respiração. Edward finalmente desviou os olhos. Mas o estrago estava feito. Edwin levantou-se lentamente da mesa. — Com licença, Majestade. Sua voz falhou. Sem esperar resposta, ele deixou o salão em passos largos. As pesadas portas de carvalho se fecharam atrás dele com um estrondo abafado. O rei observou o caçula partir, sentindo o coração apertar sob o peso do passado. Então, voltou-se para Edward, que permanecia inalterado. — Por que continua fazendo isso? O herdeiro planejou seu silêncio por alguns segundos. Quando finalmente falou, sua voz estava carregada de uma dor antiga, despida de sua armadura calculista. — Porque ainda sinto falta dela. Pela primeira vez naquela noite, o rei viu que, por trás da frieza cortante de Edward, ainda existia o menino de quatro anos que perdera a rainha. E, enquanto a neblina envolvia a realeza isolada em seu castelo , dois irmãos choravam a mesma perda de maneiras completamente diferentes. Edward ergueu-se, fez uma reverência rígida e também se retirou, preferindo a companhia de suas próprias sombras. Deixado sozinho na imensidão da sala de jantar, o rei Phillip desabou de volta em sua cadeira, esfregando as têmporas. Amélia aproximou-se silenciosamente, enchendo sua taça de vinho mais uma vez. Ele sequer notou a presença da mulher com quem um dia dividiu não apenas segredos, mas uma filha rejeitada, Olívia. O rei suspirou, puxando de dentro do manto um pergaminho com o selo quebrado de um reino vizinho. O luto precisaria dar lugar à política ao amanhecer. A princesa Isabel estava a caminho de Hereford para selar seu casamento com Edward. Uma mulher jovem, de aura leve e bondosa — uma presença que as muralhas frias de Hereford, cheias de mentiras e sangue real, estariam de maneiras que ninguém estava preparado para enfrentar.
CAPÍTULO 2
A CHEGADA DO SOL
O ar gélido dos corredores de Hereford atingiu o rosto de Edwin assim que as pesadas portas de carvalho do salão de jantar se fecharam às suas costas, abafando o som da respiração pesada de seu pai. O príncipe caçula caminhou a passos largos, o peito subindo e descendo de forma descompassada enquanto tentava, em vão, controlar a tempestade de emoções que o consumia. As sombras projetadas pelas tochas nas paredes de pedra pareciam dançar ao seu redor, zombando de sua dor.
Ele parou apenas ao alcançar uma das grandes janelas em arco que davam para o pátio principal do castelo. Apoiou as mãos no parapeito gelado e inspirou fundo o ar úmido da noite. Foi então que, por entre a cortina de neblina fina que sempre abraçava o reino, ele ouviu o ranger dos imensos portões de ferro.
Lá embaixo, uma carruagem precursora, ostentando o brasão do reino vizinho de Alvernia — um sol nascente esculpido em madeira escura —, adentrava a fortaleza. Eram os primeiros sinais da chegada da corte da princesa Isabel.
Edwin apertou os olhos, mas não teve muito tempo para observar a movimentação. O eco de passos firmes e inconfundíveis soou no corredor logo atrás dele. Antes mesmo de se virar, ouviu o timbre frio e calculista que tanto repudiava.
— Até mesmo nas sombras, você foge como um menino assustado.
Edward estava parado a poucos passos de distância.
Ao lado de Edward, um servo leal abaixou a cabeça e recuou rapidamente, deixando os dois irmãos a sós.
A tristeza de Edwin instantaneamente deu lugar a uma fúria fervente. O temperamento impulsivo, que o caçula tanto tentava domar em situações políticas, tomou as rédeas de sua mente.
— E você prefere se esconder nos cantos com seus espiões, Edward? — disparou Edwin, desencostando da janela e dando um passo na direção do irmão mais velho. — Até na noite em que choramos a morte de nossa mãe, você precisa conspirar e destilar o seu veneno?
Edward não demonstrou qualquer surpresa. Não recuou um único centímetro. Apenas ergueu levemente o queixo, mantendo a postura rígida de quem sempre tem o controle da situação.
— Chorar não traz os mortos de volta, Edwin — a voz de Edward era monótona, cortante como uma lâmina recém-afiada. — E o seu descontrole constante só prova ao rei e a todos neste castelo que você não é digno do sangue que carrega. Você é uma fraqueza para Hereford. A maior delas, diga-se de passagem, pois a sua vida custou a da rainha.
Foi a gota d'água. Guiado pela dor sufocante de uma culpa que lhe era imposta desde o berço e pelo ódio inflamado por aquelas palavras impiedosas, Edwin perdeu a razão. Com um grito gutural, ele partiu para cima do irmão mais velho, desferindo um soco guiado pela pura emoção.
Mas a diferença entre os dois era brutal, tanto física quanto mentalmente. Edward, o estrategista, apenas deslizou o corpo para o lado, esquivando-se do golpe desajeitado com uma facilidade irritante. Antes que Edwin pudesse recuperar o equilíbrio, Edward revidou. O soco do primogênito foi seco, preciso e implacável, atingindo o rosto de Edwin com um estalo doentio.
O príncipe mais novo cambaleou violentamente para trás. A visão escureceu de relance. Seu corpo perdeu as forças, incapaz de suportar o peso do golpe físico atrelado à exaustão emocional daquela noite torturante, e ele tombou no chão de pedra bruta, a consciência esvaindo-se no impacto.
— O que significa isso?! Parem com isso agora! - Exclama a a voz estrondosa do rei Phillip que ecoou pelo corredor como um trovão
O monarca, que havia saído de seus aposentos para tentar apaziguar os ânimos, deparou-se com a cena desoladora. O rei avançou a passos furiosos, empurrando Edward para longe do corpo inerte de Edwin.
— Ele é o seu irmão! — gritou o rei, com os olhos azuis faiscando de raiva e decepção.
Edward limpou o maxilar trincado, ajeitando a túnica com uma calma perturbadora. Sem dizer uma única palavra de justificativa, o herdeiro lançou um último olhar frio para o pai e para o irmão desmaiado, deu as costas e desapareceu na escuridão dos corredores.
Horas mais tarde, em seus aposentos, Edwin despertou. Sua cabeça latejava intensamente, e o gosto de sangue pairava em sua boca. Sentado na beira da cama, ele levou as mãos ao rosto machucado. Quando finalmente conseguiu fechar os olhos em busca de descanso, foi consumido por pesadelos. Sonhou com os gritos de uma mulher em agonia, com uma sala envolta em escuridão, e com o fantasma da mãe de aura bondosa que ele nunca conhecera. Ao amanhecer, tomado por uma mágoa profunda, Edwin tomou uma decisão irrevogável: não importava o quanto o rei exigisse, ele não compareceria ao casamento de Edward.
Naquela manhã, as muralhas colossais de Hereford ainda estavam expressamente envoltas pela neblina matinal quando os arautos tocaram suas trombetas, anunciando a chegada oficial da comitiva de Alvernia.
O contraste era palpável, quase doloroso aos olhos. Enquanto as pedras de Hereford erguiam-se cinzentas e severas sob bandeiras de ferro e espada, a comitiva que cruzava os portões trazia consigo uma explosão de cores. Bandeiras vermelhas e douradas tremulavam alegremente ao vento, ostentando o símbolo do sol nascente. Havia música, risos sutis e flores enfeitando os arreios dos cavalos.
O rei Phillip observava tudo do alto de sua sacada, o rosto impenetrável. Silenciosa como uma sombra, a meio passo atrás dele, estava Amélia. A empregada de quarenta e cinco anos mantinha as mãos devidamente cruzadas sobre o avental, mas seus olhos castanhos registravam absolutamente tudo. Cada gesto, cada expressão. Amélia sabia ler a alma daquele castelo melhor do que qualquer um.
— Eles chegam com música e flores… — murmurou o rei, a voz soando rouca, falando mais para o vento do que para qualquer pessoa. — Enquanto nós os recebemos com o peso do silêncio e da pedra.
Amélia não respondeu. Não era o seu papel. Ela apenas continuou observando.
À frente da reluzente comitiva vinha o rei Afonso de Alvernia, um homem de porte imaculadamente elegante. Seus cabelos grisalhos estavam perfeitamente penteados, e seus olhos castanhos transmitiam a calma típica de um homem que raramente recorria à espada, preferindo a tinta dos tratados diplomáticos. Ao seu lado, a rainha Beatrice, de semblante doce e firme, acenava para os servos de Hereford com uma delicadeza incomum naquelas terras.
Logo atrás deles, montada em uma belíssima égua branca, estava a princesa Isabel.
Aos vinte anos, Isabel parecia a própria personificação do sol que adornava os estandartes de sua família. Seus cabelos loiros caíam em ondas pelos ombros, e seus olhos verdes, vastos e expressivos, absorviam cada detalhe daquele novo e assustador mundo. Sua aura irradiava leveza, uma pureza que contrastava brutalmente com as muralhas.
Contudo, havia uma pequena sombra de receio em seu olhar — a consciência amarga de que estava sendo entregue a um destino, e a um marido, que jamais escolheria por si mesma.
— Hereford é tão diferente de Alvernia… — confidenciou Isabel em um sussurro quase inaudível à sua dama de companhia, apertando as rédeas enquanto o cavalo marchava pelo pátio de pedra. — O ar aqui parece espesso. É como se cada uma dessas muralhas guardasse séculos de histórias de dor.
No grande salão, a recepção foi um verdadeiro choque de mundos. O rei Phillip ergueu-se de seu trono, impondo sua figura austera e intimidadora, enquanto Afonso de Alvernia abriu os braços em um gesto caloroso e fraternal.
— Majestade Phillip! — saudou Afonso, a voz preenchendo o salão com cordialidade. — Que este encontro marque o início de uma nova e próspera era entre nossos povos.
— Que assim seja, Rei Afonso — respondeu Phillip, sem permitir que um único sorriso quebrasse a rigidez de seu rosto.
— Mas que seja também uma era forjada na disciplina, no dever e no respeito mútuo.
À direita do rei, sentado em sua cadeira de encosto alto, estava Edward. O príncipe herdeiro observava sua futura esposa com a frieza de quem avalia uma peça em um tabuleiro de xadrez. Para ele, Isabel não era uma companheira; era um dever político, uma obrigação contratual que garantiria mais poder bélico ao seu exército e pavimentaria seu caminho até a coroa de Hereford.
No canto oposto do salão, deslocado entre as pilastras, estava Edwin. O olho roxo e o lábio inferior cortado eram evidências claras da noite anterior. Diferente dos nobres de Hereford — que fofocavam e olhavam para os alvernianos como se fossem ingênuos e festivos demais —, Edwin sentiu um estranho aperto no peito. Ao ver a jovem princesa, ele sentiu empatia. Ela parecia tão presa e solitária no meio daquelas pessoas quanto ele se sentia dentro de sua própria casa.
E, encolhida no canto próximo às grandes tapeçarias, a empregada Amélia arquivou cada um daqueles olhares. Ela sabia, melhor do que qualquer um, que aquele casamento não traria apenas um pacto de paz; seria o gatilho de uma guerra silenciosa travada através de segredos e verdades perigosas que ainda estavam por vir.
Nos dias que se seguiram, a princesa Isabel tentou adaptar-se à frieza de Hereford. Em sua terra natal, ela era conhecida por tratar plebeus e nobres com a mesma dignidade. “Uma palavra gentil pode ser mais valiosa que uma grande riqueza”, era o que costumava dizer aos criados de seu palácio. Mas em Hereford, os sorrisos não eram bem-vindos.
Antes do grande dia do matrimônio, Isabel e Edward tiveram pouquíssimos encontros a sós, e todos estritamente supervisionados à distância. Em uma dessas raras ocasiões, no crepúsculo da véspera do casamento, ela caminhava pelo jardim interno do castelo — um lugar melancólico com roseiras cheias de espinhos —, quando o encontrou. Edward estava de pé, imóvel como uma gárgula de pedra, observando as terras distantes além dos muros.
Isabel aproximou-se em silêncio. Aos 31 anos, Edward exalava um ar de perigo contido.
— Vossa Alteza parece sempre estar pensando em algo muito distante — disse Isabel, parando ao lado dele com um pequeno e respeitoso sorriso.
Edward virou o rosto lentamente. Seus olhos azuis a mediram da cabeça aos pés.
— Talvez seja porque eu esteja sempre focado no futuro, princesa — respondeu ele, a voz desprovida de calor.
Isabel inclinou levemente a cabeça, os olhos verdes curiosos, tentando decifrar o muro intransponível que aquele homem construíra ao redor de si mesmo.
— E não existe espaço para o presente em sua vida, Vossa Alteza?
Por longos e pesados segundos, Edward ficou em silêncio. A pergunta era de uma simplicidade infantil, mas o atingiu de uma forma incômoda. Ninguém jamais ousava questioná-lo sobre o que ele sentia.
— O presente não dura muito tempo. O futuro é o que molda os grandes reis — decretou ele.
Isabel sorriu suavemente, sem se intimidar com a rispidez dele.
— Então, talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas se esquecem de aproveitá-lo antes que ele escape por entre os dedos.
Edward não retrucou. Ele apenas a observou, as sobrancelhas levemente franzidas, tentando descobrir como alguém poderia enxergar o mundo de uma forma tão diferente, tão otimista e tola aos olhos dele. Mas para Isabel, aquele breve instante de silêncio foi o suficiente. Ela não viu apenas o príncipe tirano de quem todos falavam; viu um homem que havia se esquecido de como era sentir qualquer coisa além de ambição.
CAPÍTULO 3
O CASAMENTO.
O dia do casamento amanheceu rapidamente, engolindo os últimos vestígios de liberdade da princesa Isabel. O grande salão do castelo de Hereford foi transformado desde as primeiras horas da madrugada. Amélia, supervisionava cada detalhe, a empregada silenciosa observava os criados mais jovens correrem de um lado para o outro, carregando pesados arranjos florais. As flores exóticas e as músicas alegres trazidas pela comitiva de Alvernia já preenchiam o ar, mas, por mais que tentassem, não conseguiam mascarar o cheiro metálico e úmido que emanava das pedras ancestrais de Hereford. A atmosfera da cidade e do castelo permanecia sóbria e melancólica, um contraste brutal com as fitas douradas que agora adornavam as pilastras.
Amélia arrumava os toques finais nas mesas do banquete, alinhando as taças de prata com uma precisão cirúrgica. De sua posição estratégica perto das grandes portas de carvalho, ela observava a chegada ininterrupta dos convidados. Nobres de diversas terras se amontoavam nas galerias, exibindo veludos caros e joias cintilantes.
Os parentes da família real de Hereford, com suas expressões duras e roupas de tons escuros, misturavam-se com relutância à família de Isabel e aos convidados da nobreza alverniana, que irradiavam uma festividade quase ofuscante. Os murmúrios preenchiam o salão, tecendo teias de fofocas, alianças e intrigas políticas. Hereford respirava o medo e a esperança daquela união, sendo o palco perfeito para as tensões que moldaram a luta pelo poder. Amélia registrava cada olhar de soslaio, cada sorriso falso. Ela sabia que aquele casamento era apenas um tabuleiro sendo montado.
Enquanto o salão fervilhava, uma tensão gélida dominava a ala oeste do castelo. Nos aposentos do primogênito, uma das jovens criadas, com as mãos trêmulas e a cabeça baixa, levou o terno cerimonial para o príncipe que iria se casar. Edward estava de costas, observando a neblina pela janela de seus aposentos.
— Deixe sobre a cama e saia — ordenou Edward, a voz fria e distante, sem sequer olhar para a garota.
A criada obedeceu apressadamente e sumiu pelo corredor. Sozinho, Edward virou-se e caminhou até a veste escura, adornada com fios de prata e o brasão de espadas de Hereford. Ele pegou o terno, sentindo o peso do tecido. Seus cabelos ondulados castanhos claros, quase cor de mel, contrastavam com a barba rala e os olhos azuis que não refletiam nervosismo algum, apenas um cálculo meticuloso.
Diante do espelho espesso, Edward começou a se arrumar. Ele não via um homem prestes a se entregar ao amor; via um futuro rei vestindo sua armadura diplomática.
Para ele, Isabel de Alvernia era um instrumento. Obcecado pelo poder e pelo trono, Edward estava disposto a qualquer sacrifício para alcançá-lo, e aquele casamento era o passo definitivo para consolidar seu exército e sua influência.
Ele abotoou a gola alta, o maxilar trincado.
Uma princesa bondosa, pensou com desdém. Em Hereford, a bondade era uma fraqueza que os fortes devoravam no café da manhã. Ele a moldávia. Ele a controlaria. Ele seria o rei absoluto.
Longe da frieza de Edward, nos aposentos iluminados por dezenas de velas na ala leste, o clima era de uma apreensão silenciosa. Amélia havia sido designada para ajudar nos preparativos da noiva. A princesa Isabel. Seus cabelos loiros de comprimento médio caíam em ondas perfeitas, e seus olhos verdes transmitiam uma delicadeza que cortava o coração da velha empregada.
Amélia ajustava os laços do corpete do vestido de noiva, um tecido pesado de seda branca e bordados dourados que parecia engolir a silhueta delicada da garota. A porta se abriu com suavidade, e a Rainha Beatrice de Alvernia, mãe de Isabel, entrou no quarto. O semblante da rainha era doce, porém carregado da preocupação que apenas uma mãe poderia ter. Amélia deu um passo para trás, tornando-se uma sombra no canto do quarto, mas com os ouvidos perfeitamente atentos.
— Minha pequena Isabel... — sussurrou a rainha Beatrice, aproximando-se e tocando o rosto da filha.
— Você está deslumbrante. Um verdadeiro sol em meio a tanta pedra.
Isabel forçou um sorriso, mas seus olhos verdes traíram sua angústia.
— Obrigada, mamãe. Mas me sinto vestindo uma armadura, não um vestido de noiva.
Beatrice segurou as mãos frias da filha. — Como você se sente, de verdade?
Hereford é um lugar hostil, meu amor. Eu vejo como o rei Phillip nos olha. Eu vejo a frieza do seu futuro marido.
A princesa desviou o olhar para o espelho, observando o próprio reflexo, e depois o de Amélia, invisível ao fundo. Educada e gentil, Isabel sempre acreditou na pureza das pessoas e raramente via maldade em alguém. Mas o ar de Hereford estava testando sua fé.
— Eu estou apavorada, mamãe — confessou Isabel, a voz embargada.
— O príncipe Edward... ele é como um inverno que nunca acaba. Ele prefere o silêncio, os cálculos. Não vejo calor em seus olhos. Tenho medo de que, ao cruzar aquelas portas, eu perca quem eu sou para me tornar mais uma sombra deste castelo.
A rainha mãe apertou as mãos da filha, os olhos marejados.
— Nunca permita isso, Isabel. A escuridão só vence quando a luz decide se apagar. Eles podem ter as muralhas mais altas e os corações mais duros, mas você tem uma força que eles desconhecem. A sua doçura é a sua verdadeira coroa. Prometa-me que não deixará que Hereford a mude.
— Eu prometo, mamãe — disse Isabel, erguendo o queixo com uma nova determinação. — Eu vou encontrar a luz neste lugar, nem que eu mesma tenha que acendê-la.
Com tudo pronto, os corredores começaram a se esvaziar em direção ao salão principal. No entanto, havia um quarto cuja porta permaneceria trancada. O príncipe Edwin, estava sentado na beirada de sua cama, os cabelos, normalmente bem arrumados, agora bagunçados pelo tormento. O hematoma em seu rosto ainda latejava, um lembrete físico da fúria de seu irmão mais velho e da indiferença de seu pai.
Um lacaio bateu à porta timidamente.
— Alteza? O rei exige sua presença. A cerimônia está prestes a começar.
Edwin não se moveu. Seus olhos azuis, outrora cheios de empatia, estavam turvos pela mágoa.
Diferente do irmão, ele era impulsivo, guiado pelas emoções, e a dor que carregava em seu coração bondoso era grande demais para ser mascarada com roupas de festa.
— Diga ao meu pai e ao meu querido irmão... — a voz de Edwin saiu áspera, rasgando a garganta — que eu não comparecerei. Negando-se a ir ao casamento por motivos óbvios. Diga a eles que a cadeira vazia será o meu presente de núpcias.
O lacaio não ousou retrucar e seus passos se afastaram rapidamente.
Edwin voltou a olhar para o chão de pedra, sentindo-se mais solitário do que nunca.
No grande salão, as trombetas reais soaram, exigindo que o burburinho cessasse. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Fiel à sua promessa silenciada, Edwin de Hereford não apareceu, e sua cadeira vazia na primeira fileira tornou-se imediatamente o principal sussurro entre as damas da corte, um escândalo mudo que o Rei Phillip tentou ignorar com a mandíbula travada.
As pesadas portas de carvalho se abriram. A música de Alvernia ecoou suave e majestosa. Isabel caminhou pela longa nave do salão, guiada por seu pai, o Rei Afonso. Ela ostentava serenidade e uma postura impecável. Ela segurava as dobras de seu pesado vestido de seda com delicadeza, mas, por baixo do tecido suntuoso, seu coração batia descompassado. Não era medo da cerimônia; era o pavor do desconhecido.
No altar, iluminado por centenas de velas bruxuleantes, estava Edward. Sua figura imponente parecia esculpida no próprio gelo do castelo.
Quando Isabel finalmente parou diante dele, entregue por seu pai, ela encontrou novamente aquele olhar controlador. No entanto, atenta aos detalhes, Isabel percebeu algo a mais: por uma fração de segundo, os olhos gélidos de Edward vacilaram, abrigando uma dúvida profunda que ele logo tratou de enterrar sob a fachada de monarca.
O sacerdote ergueu as mãos, dando início aos ritos sagrados medievais.
O salão estava imerso em uma quietude sepulcral, onde cada respiração parecia ecoar nas abóbadas de pedra.
— Hoje, diante de todos os presentes e dos deuses, prometo honrar esta união e cumprir a minha palavra como marido e futuro rei — declarou Edward, a voz ressoando com uma firmeza militar que arrepiou os convidados alvernianos.
Quando chegou a vez de Isabel, o salão caiu em um silêncio absoluto. A princesa respirou fundo, lembrando-se das palavras de sua mãe. Ela manteve os olhos verdes fixos nos de Edward, emanando uma força que vinha puramente de sua bondade inerente.
— Eu prometo trazer respeito, lealdade e compaixão para esta união. E prometo... — ela pausou brevemente, erguendo o queixo, desafiando as sombras daquele castelo e do homem à sua frente — nunca esquecer aquilo que acredito ser correto, lutando pela luz mesmo nas sombras.
Eram palavras singelas, mas carregadas de uma verdade inabalável.
O sacerdote uniu as mãos dos dois sobre o altar, amarrando a fita cerimonial que selava os reinos, e as alianças pesadas de ouro foram trocadas.
— Eu aceito esta união — disseram ambos em uníssono, as vozes entrelaçando o frio de Hereford e o calor de Alvernia.
Após os votos sagrados, foram declarados perante os deuses e os homens como marido e mulher. O sacerdote recuou, e Edward depositou um beijo casto e ensaiado na testa de Isabel. Os aplausos ecoaram estrondosos pelas paredes do castelo, uma ovação de alívio e política, porém Isabel permaneceu em absoluto silêncio ao lado de seu agora marido, encarando a nobreza que os aplaudia.
Mais tarde, a festa atingiu seu ápice. A música alta preenchia o salão, o vinho fluía em abundância e os nobres dançavam, inebriados pelo luxo. Escapando do centro das atenções, Edward e Isabel caminharam juntos por um dos corredores mais afastados e escuros do castelo, finalmente a sós.
O silêncio reinou pesadamente entre os dois até que Edward, parando perto de uma das largas pilastras de pedra, virou-se para ela. A luz de uma tocha solitária iluminava metade de seu rosto, deixando a outra na mais densa escuridão.
— Você caminhou até o altar sem hesitar. Você parece não estar assustada com nada disso, Isabel.
A jovem rainha consorte, sem recuar um centímetro, sustentou o olhar penetrante do marido. Sua postura doce e altruísta não significava fraqueza.
— Eu estou assustada, Edward. Mais do que pode imaginar — confessou ela, surpreendendo-o com sinceridade. — Só me recuso a permitir que o medo faça as escolhas por mim.
Edward estreitou os olhos azuis, genuinamente intrigado pela primeira vez na noite. — Você é ingênua, princesa. Sempre acredita que, no final das contas, tudo pode terminar bem?
Isabel pensou com cuidado nas palavras antes de responder. Ela se virou ligeiramente, de frente para a imensidão escura do corredor que se estendia além deles.
— Não. Eu não sou tola. Eu apenas acredito que, independentemente da situação, as pessoas sempre têm a escolha de fazer o bem. A questão é se elas têm coragem para isso.
A resposta flutuou no ar pesado e gélido do castelo. Edward estava acostumado a lidar com manipuladores astutos, com nobres sedentos por favores, ouro ou terras vastas. Mas sua nova esposa não desejava absolutamente nada daquilo. Ela não se importava minimamente com o trono pelo qual ele estava disposto a matar e morrer.
Ela queria conhecer o homem por trás do monstro. E essa, para a ruína do príncipe calculista, era a única coisa no mundo inteiro que Edward não sabia como controlar.
Enquanto a princesa Isabel iniciava sua jornada tortuosa ao lado de um homem cujas veias pulsavam uma ambição cega, ela mantinha viva a esperança de que até a pedra mais dura de Hereford poderia ser rachada pelo calor do sol de Alvernia.
O que ela não imaginava, contudo, é que os segredos enraizados naquelas fundações escuras testariam sua pureza e sua bondade até as últimas consequências.
No fim daquele mesmo corredor, misturada à escuridão e escondida atrás das grandes tapeçarias reais, a empregada Amélia ouviu o diálogo inteiro em absoluto silêncio. Seus olhos castanhos brilhavam na penumbra. Ela fechou os olhos por um segundo, o coração batendo no ritmo da música distante, sabendo perfeitamente que as peças do destino haviam acabado de ser dispostas de forma irreversível no tabuleiro.
A bondade inabalável de uma princesa, a ausência ressentida de um príncipe caçula e a ambição desmedida de um herdeiro. E agora, o jogo de verdade iria começar.
CAPÍTULO 4
A DAMA DE COMPANHIA
A atmosfera do reino era invariavelmente sóbria e melancólica, com o silêncio pesado das muralhas engolindo qualquer som que ousasse vir do lado de fora.
A manhã seguinte ao tenso casamento real amanheceu com a mesma neblina pálida e fria de sempre, como se a própria cidade se recusasse a aceitar a alegria festiva que os convidados de Alvernia haviam tentado impor. No grande salão, o cheiro de vinho derramado e cera derretida ainda pairava no ar. Enquanto os outros criados caminhavam exaustos limpando os resquícios do banquete, Amélia movia-se com a precisão de um fantasma, sua presença quase passando despercebida. Seus olhos castanhos e atentos registravam cada detalhe, guardando para si os segredos profundos que rondavam a realeza.
Ela ainda repassava em sua mente a conversa que ouvira na noite anterior, escondida atrás das grandes tapeçarias reais. A princesa Isabel, uma jovem de vinte anos e 1,68m de altura, havia enfrentado o implacável príncipe Edward com uma coragem que beirava a ingenuidade. "Eu apenas acredito que as pessoas sempre têm a escolha de fazer o bem", ela disse. Amélia soltou um suspiro quase inaudível enquanto polia um candelabro de prata. Isabel, transmitiam tanta delicadeza, acreditava na pureza das pessoas e raramente via maldade em alguém. Mas a princesa não sabia que, em Hereford, o bem e o mal não eram meras escolhas; eram maldições passadas pelo sangue.
— Amélia.
A voz grave e cansada fez com que a empregada parasse seus movimentos por uma fração de segundo. Ela virou-se, abaixando a cabeça em uma reverência polida.
O Rei Phillip estava de pé na entrada do salão. O monarca parecia carregar o peso do mundo inteiro sobre os ombros. Mas foram os olhos azuis dele que fizeram o coração de Amélia dar um solavanco surdo. Aqueles olhos azuis, que costumam refletir rigor e disciplina, agora transpareciam apenas a dor de uma perda irreparável pela rainha Catharine.
— Majestade — respondeu ela, a voz baixa, desprovida de qualquer emoção.
— Os alvernianos partirão ao meio-dia — disse o rei, caminhando lentamente pelo salão vazio, arrastando levemente a capa pesada.
— Certifique-se de que as provisões para a viagem do Rei Afonso estejam prontas. Não quero que digam que Hereford não sabe ser hospitaleira, mesmo que não saibamos sorrir.
— Sim, meu senhor. Imediatamente.
Phillip parou a poucos passos dela. Por um longo momento, o silêncio entre os dois pareceu denso, carregado de décadas de um passado não dito. Houve um tempo, muito antes da rainha Catharine morrer e da frieza tomar conta do rei, em que ele olhava para Amélia de outra forma. A história dele era marcada por um segredo sombrio: ele havia rejeitado Olívia, fruto de sua relação com Amélia, para manter a pureza de seu matrimônio com a rainha. Ele havia escolhido a honra e o dever em vez da verdade.
Sem dizer mais nada, Phillip deu as costas e retirou-se. Amélia observou a figura encurvada do rei desaparecer no corredor. Ela não sentia ódio; o ódio exigia energia, e ela precisava de toda a sua força para observar em silêncio e proteger o maior segredo daquele castelo.
Deixando o salão para os criados mais jovens, Amélia caminhou silenciosamente até a ala leste do castelo, onde ficavam os aposentos da nova princesa. O som de vozes suaves ecoou pela fresta da pesada porta de carvalho. Amélia parou, encostando a mão na madeira fria, e permitiu-se ouvir.
— Você tem mãos muito gentis, Olívia. — É a minha função, Alteza. Garantir que tudo esteja perfeito para a senhora.
Ouvir aquele nome fez uma chama quente e protetora acender no peito da empregada. Amélia empurrou a porta de leve e entrou nos aposentos carregando uma bandeja com toalhas de linho limpas e água morna.
Sentada diante do grande espelho de moldura de prata, a princesa Isabel tinha os cabelos loiros sendo cuidadosamente escovados por sua nova dama de companhia.
E lá estava ela. Olívia.
Com vinte e seis anos e 1,66m de altura, Olívia era uma mulher de elegância estonteante e extrema dedicação. Seus cabelos longos e intensamente pretos, como os de Amélia na juventude, caíam como uma cascata de seda por suas costas. Sua pele era clara, quase de porcelana, mas o que realmente prendia a atenção de qualquer um que ousasse olhá-la de frente eram seus olhos brilhantes e azuis. Eram os olhos inconfundíveis do Rei Phillip.
Amélia engoliu a seco, abaixando o olhar enquanto colocava a bandeja sobre a mesa. Era um milagre, ou talvez uma tragédia, que ninguém no castelo tivesse juntado as peças. Olívia era considerada órfã aos olhos de todos e desconhecia completamente sua verdadeira origem: a filha ilegítima do rei Phillip com a empregada. A própria jovem não sabia que o sangue que corria em suas veias era real, nem que a mulher silenciosa que sempre trazia as toalhas era, na verdade, a sua mãe.
— O castelo parece menos assustador com a luz da manhã — comentou Isabel, sorrindo para o reflexo de Olívia no espelho.
A princesa vestiu um robe simples, provando que sua postura doce e altruísta a tornaria a alma mais leve da família real.
— Hereford tem a sua beleza, Alteza — respondeu Olívia, a voz melodiosa, trançando habilmente os fios dourados da princesa.
— Só é preciso ter paciência para enxergá-la. A maioria desiste antes de tentar.
Os movimentos de Olívia pararam por um segundo, e Amélia, ainda no canto do quarto organizando as prateleiras, também congelou.
Isabel sorriu, um sorriso genuíno que iluminou o quarto sombrio. — Não é ousadia dizer a verdade, Olívia. Espero que possamos ser amigas.
O príncipe Edward me avisou que o presente passa rápido, mas eu pretendo fazer com que os dias aqui sejam bons.
Amélia observava a interação, maravilhada com a pureza da princesa.
Isabel não via maldade. Ela não percebia a tempestade letal que se formava nos corredores. Edward, era obcecado pelo poder e pelo trono, disposto a qualquer sacrifício para alcançá-lo. A disputa pelo trono entre os príncipes, somada ao vazio perigoso deixado pela morte da rainha, alimentavam rivalidades e alianças ocultas. E Edwin...
Naquele exato momento, a porta dos aposentos foi aberta abruptamente, quebrando a serenidade do ambiente.
O príncipe Edwin parou no umbral, ele estava ofegante. O olho direito ainda estava horrivelmente roxo, e o corte no lábio inferior, resquícios da violenta briga com Edward na noite anterior, parecia ter inchado.
Isabel levantou-se num salto, surpresa, enquanto Olívia assumia uma postura protetora, dando um passo à frente da princesa. Amélia recuou para as sombras da tapeçaria, tornando-se, mais uma vez, perfeitamente invisível.
— Príncipe Edwin — disse Isabel, a voz suave, mas firme. — Você está machucado.
Edwin piscou, parecendo de repente perceber onde estava.
Seu temperamento impulsivo e guiado pelas emoções o havia levado até ali, possivelmente à procura de um refúgio. Ao encontrar apenas a nova esposa de Edward e a dama de companhia, a raiva em seu rosto desmoronou, dando lugar a uma vulnerabilidade palpável.
— Peço perdão, Alteza — murmurou Edwin, evitando o contato visual, a culpa de vinte e quatro anos pesando em seus ombros largos. — Eu... errei de porta.
Isabel deu um passo à frente, os olhos repletos de compaixão. Ela não via o príncipe indigno e descontrolado que Edward descrevia. Ela viu um jovem ferido.
— Olívia — pediu a princesa, sem tirar os olhos de Edwin.
— Por favor, pegue um pouco daquela água morna e os panos limpos que Amélia trouxe. O príncipe precisa de cuidados.
Edwin recuou um passo, defensivo. — Não é necessário. — Eu insisto — retrucou Isabel, com uma teimosia doce.
Olívia, obediente e graciosa, umedeceu um pano de linho e aproximou-se do príncipe. Seus olhos azuis brilhantes, idênticos aos do monarca e, ironicamente, tão parecidos com os olhos azuis do próprio Edwin — embora nenhum dos dois soubesse que compartilhavam o mesmo pai —, se encontraram por um instante.
— Com licença, Alteza — disse Olívia em voz baixa, erguendo a mão delicada para limpar o sangue seco no maxilar do príncipe.
Edwin estremeceu com o toque, mas não se afastou. Ele olhou para a dama de companhia e depois para Isabel. Pela primeira vez em muito tempo, o príncipe caçula sentiu que não estava sendo julgado. Seu coração bondoso, escondido atrás de tanta mágoa, reconheceu a luz naquelas duas mulheres.
Do fundo do quarto, Amélia assistia à cena com o coração apertado. Ali estavam eles: o príncipe rejeitado pela culpa, a princesa destinada a um casamento político sem amor e a filha bastarda de um rei, tecendo laços improváveis que o implacável castelo de Hereford tentava desesperadamente destruir.
Amélia pegou sua bandeja vazia e deslizou em silêncio em direção à saída, passando despercebida por todos eles. Ao fechar a pesada porta às suas costas, a empregada olhou para a longa escuridão dos corredores de pedra.
A guerra entre o calculista Edward e o emotivo Edwin não seria mais travada apenas com palavras cortantes ou socos nos corredores. Seria com espadas e exércitos.
E, no centro daquele inevitável banho de sangue, o segredo da linhagem de Olívia — a legítima herdeira que carregava o sangue do rei e herdaria o sobrenome real — seria a chave para a salvação ou a ruína absoluta de todos eles.
Amélia apertou a bandeja contra o peito. A invisibilidade era o seu maior dom. E ela, a narradora oculta daquela corte, a usaria até o último segundo para garantir que a sua filha sobrevivesse à queda da realeza.
CAPÍTULO 5
AMÉLIA
Sempre disseram, em sussurros temerosos pelos cantos escuros, que as pesadas paredes de pedra de Hereford têm ouvidos. O que os nobres arrogantes e os monarcas de feições impenetráveis ignoram, enquanto desfilam por estes corredores encharcados de soberba, é que esses ouvidos têm nome, têm memória e, acima de tudo, têm um coração que sangra em segredo.
Esta voz, silenciada por décadas pelo puro instinto de sobrevivência, é a minha.
Eu sou Amélia.
Passei uma vida inteira sendo tratada como parte da mobília. Fui o fantasma que lustra a prata do banquete, a sombra constante que recolhe as taças de vinho manchadas pelas mentiras da corte, a presença perfeitamente invisível que guarda os segredos mais profundos e sombrios da realeza.
Até o dia de hoje, fui apenas uma testemunha muda, um espectro condenado a observar o desenrolar das tragédias familiares sem o direito de proferir uma única palavra de consolo ou de aviso.
Mas o silêncio, percebo agora, é um fardo que se torna insuportável com o avanço implacável do tempo. A verdadeira história deste castelo, a narrativa que realmente importa, não foi escrita com a tinta nobre dos tratados diplomáticos, mas sim com o suor, as lágrimas e as renúncias daqueles que foram obrigados a calar.
Para entender a ruína emocional que corrói lentamente as fundações desta coroa, é preciso primeiro ter a coragem de olhar para além das nossas espessas muralhas. Da estreita e úmida janela dos meus aposentos de serva, na ala mais esquecida do castelo, eu costumo observar o mundo lá fora.
A cidade de Hereford é, em sua essência, um espelho amargo e cruel da desigualdade de nossa época. Ela é dividida por abismos invisíveis, porém intransponíveis.
Longe daqui, nos vales afastados e envoltos pela lama e pela desesperança, os plebeus sobrevivem. Eles se amontoam em casas simples e frágeis, lutando arduamente por cada pedaço de pão duro, acordando antes do amanhecer para alimentar uma máquina que os devora dia após dia. A fumaça de suas chaminés sobe aos céus como um pedido de socorro que os deuses, e muito menos os reis, jamais respondem.
Mais perto do centro, como parasitas adornados em veludo, a nobreza ostenta o seu luxo frívolo. Eles sorriem com falsidade em seus bailes, brindam ao próprio ego e festejam com uma arrogância doentia, fechando os olhos para a miséria que os cerca. Contudo, vivem eternamente encolhidos, temerosos, respirando sempre sob a sombra ameaçadora da família real.
E no topo de tudo isso, reinando sobre a neblina e sobre o sangue, ergue-se o nosso castelo. A realeza de Hereford reina em um isolamento quase asfixiante, mantendo uma distância repulsiva e fria das dores e do sofrimento do povo.
A atmosfera da nossa cidade é invariavelmente sóbria, carregada de uma melancolia que parece impregnar as pedras das ruas estreitas. O barulho caótico e desesperado dos mercados lá embaixo forma um contraste perturbador com o silêncio sepulcral e pesado que aprisiona estas muralhas. Hereford é uma cidade que respira esperança e medo em igual medida. É um palco vasto e cruel, onde as tensões diárias moldam cada passo da interminável e sangrenta luta pelo poder.
E eu... eu respiro esse medo todos os dias da minha vida.
A minha jornada nestes salões sombrios não começou com a subserviência de uma vassoura nas mãos, mas sim com uma ilusão tola que me custou a própria alma.
O Rei Phillip... Houve um tempo, antes de ele ser completamente consumido pela amargura, pelo luto e pela rigidez implacável que hoje domina suas feições, em que ele me olhava de uma maneira diferente. Seus sorrisos outrora prometiam proteção, intimidade, uma fuga da minha realidade invisível. Mas o que a realeza promete nas sombras, ela destrói quando o sol nasce. A nossa história é marcada por um segredo que rasga o meu peito como uma lâmina quente a cada amanhecer: para manter a honra inabalável de seu matrimônio com a rainha Catharine, para proteger a sua preciosa coroa de um escândalo mundano, o rei rejeitou Olívia.
Ele rejeitou a nossa filha. O fruto da nossa relação foi varrido para debaixo dos tapetes deste castelo imundo.
Naquele dia, meu coração endureceu e transformou-se em pedra. Para proteger a minha menina da fúria implacável da corte, do repúdio público e do destino trágico que aguarda os bastardos indesejados, eu tomei a decisão mais excruciante que uma mãe poderia tomar: eu a entreguei. Abri mão do meu direito de embalá-la, de chamá-la de minha, apenas para que ela pudesse simplesmente viver.
Permiti, com a alma em frangalhos, que ela crescesse sendo vista como uma órfã acolhida por caridade.
Observei-a, de longe, tornar-se uma dama de companhia absurdamente dedicada, dócil e perfeita. Olívia não faz a menor ideia de sua verdadeira origem.
Ela desconhece, em sua mais absoluta inocência, que é filha ilegítima do rei. Toda vez que ela sorri para mim e me chama pelo meu nome de serva, com aquela voz carregada de um respeito distante e gentil, eu travo uma guerra interna para não cair de joelhos e desabar em prantos.
Eu a observo escovar os cabelos da princesa Isabel com um zelo comovente, sem que a minha doce menina desconfie, sequer por um segundo, que o mesmo sangue real pelo qual príncipes se matam nos corredores também pulsa forte em suas próprias veias.
Agora, caminhando por estas galerias opressivas e varrendo o chão após as frias núpcias reais, eu contemplo uma dinastia à beira do precipício. O castelo está ruindo de dentro para fora.
O Rei Phillip está definhando diante de nossos olhos. A sua feição, outrora a personificação do temor e do respeito, hoje é apenas uma máscara pálida de exaustão, doença e uma culpa esmagadora que o consome em vida.
Ele carrega a ausência da rainha Catharine como uma âncora invisível amarrada ao pescoço, e sua covardia em nunca ter lidado com o ódio latente entre seus dois filhos selou, de forma irrevogável, o destino fúnebre desta família.
Edward me aterroriza de uma maneira profunda. A frieza cínica de suas expressões e a rigidez imperturbável de sua postura escondem uma mente que não compreende o significado da compaixão.
Ele apenas calcula as fraquezas alheias, movendo as pessoas como peões em sua própria mente. O sorriso de desdém que ele lança aos servos e até mesmo à nobreza revela um homem capaz de incendiar Hereford inteira, de transformar a cidade em cinzas e assistir à queima com total apatia, se isso lhe garantir o peso da coroa sobre a cabeça.
Ao lado desse abismo que é Edward, caminha a jovem princesa Isabel. A presença dela é quase dolorosa de se observar. Ela tenta, de forma desesperada e comovente, plantar sementes de gentileza em um solo completamente podre.
A angústia travada em seu rosto durante os votos de casamento foi palpável para quem sabe ler as almas, mas a forma altiva como ela se recusa a ceder ao pânico é admirável. Ela é a única fagulha de luz, a única chama de pureza e esperança dentro deste lugar maldito, mas temo que a escuridão daqui acabe por sufocá-la.
E, pelos cantos, fugindo da própria sombra, há Edwin. O caçula eternamente ferido. A corte o enxerga como impulsivo, indigno, guiado por explosões de raiva irracionais, mas eu vejo a verdade. Suas reações descontroladas são, na realidade, um choro mudo e desesperado por socorro. Quando o vi desabar pelos corredores, com o rosto machucado não apenas pelos golpes físicos do irmão, mas humilhado pela indiferença torturante de um pai que mal consegue olhá-lo, vi uma alma completamente estilhaçada. Uma alma bondosa que só queria ter sido amada o suficiente para não sentir, todos os dias, que o seu primeiro suspiro de vida foi o maior crime já cometido neste reino.
As tensões estão em seu limite. A atmosfera do castelo estala como gelo prestes a se romper. Mas a tempestade verdadeira que se aproxima de Hereford não nascerá do fio das espadas de generais enfurecidos ou dos discursos falsos da nobreza no centro da cidade.
A tempestade sou eu.
Durante mais de duas décadas, eu engoli o meu orgulho. Afoguei a minha dor maternal, reprimi meus gritos e teci a invisibilidade ao meu redor como o mais grosso manto de sobrevivência. Eu aprendi a rastejar pelas sombras para proteger a minha filha.
Porém, o rei está próximo do fim. O som de sua tosse fraca ecoa pelas madrugadas, anunciando o inevitável. Quando ele der seu último e doloroso suspiro, o banho de sangue pelo qual Edward tanto anseia para usurpar o poder absoluto, e do qual Edwin não conseguirá fugir, finalmente explodirá. Hereford será palco de uma guerra fraterna e brutal.
Desta vez, contudo, eu não serei apenas a serviçal que esfrega as manchas rubras no chão de pedra chorando em silêncio. Serei a mão oculta que reorganiza o tabuleiro. Hereford pode até pertencer aos lordes no papel, mas os segredos que têm o poder de aniquilar tronos e derrubar reis pertencem unicamente a mim.
E eu juro por tudo que é sagrado... eu usarei cada um desses segredos, sem a menor piedade ou hesitação, para destruir quem for preciso. Porque quando as muralhas desmoronarem e os príncipes caírem por sua própria ganância, eu garantirei que a minha Olívia — a herdeira silenciada, a verdadeira dona daquele trono — tenha o destino grandioso que lhe foi roubado no dia em que nasceu.
A invisibilidade foi a minha prisão, mas a partir de hoje, ela será a minha arma.
CAPÍTULO 6
TRAIÇÃO E O FRUTO
A memória é o algoz mais cruel que um ser humano pode carregar. A mulher que limpa as sombras deste castelo hoje não é a mesma garota que cruzou os portões de ferro há vinte e sete anos. Para compreender o abismo em que minha vida foi atirada, é preciso voltar no tempo. Voltar para a época em que eu ainda acreditava em sorrisos.
Quando cheguei à cidade, o cenário já era o reflexo da melancolia profunda que adoece a todos nós. Os plebeus trabalhavam até que seus ossos doessem nos vales afastados, enquanto a nobreza festejava no centro. Para nós, camponeses, a realeza que habitava o topo da colina não passava de um mito inalcançável. E foi exatamente essa ignorância que selou a minha ruína.
Ocorreu durante o festival da colheita no mercado central. O barulho caótico e o cheiro de pão quente tentavam disfarçar o desespero de Hereford. Eu estava encostada em uma barraca, tentando me aquecer, quando a presença dele mudou a atmosfera ao meu redor. Ele usava um manto escuro e pesado que escondia suas vestes, e uma expressão de profunda exaustão.
— Uma noite muito fria para um sorriso tão triste — disse ele, a voz grave cortando o barulho do mercado.
Eu me encolhi, defensiva, cruzando os braços.
— A cidade é sombria para quem não tem ouro, senhor. A tristeza é de graça.
Ele deu um passo à frente. O magnetismo em sua postura me desarmou instantaneamente.
— Você fala com uma amargura que não combina com a sua juventude. Como se chama?
— Amélia — respondi, hesitante. — E o senhor? Costuma andar pelos becos escuros interrogando plebeias?
Ele soltou uma risada baixa, quase dolorosa, e olhou para o topo da colina, para o castelo distante.
— Sou apenas um oficial. Um soldado cansado de seguir ordens e de carregar o peso das espadas dos outros. Por um momento, queria apenas conversar com alguém que não esperasse nada de mim.
Foi assim que começou. Nas semanas seguintes, nós nos encontrávamos em segredo nas sombras da cidade baixa. Ele me ouvia com uma atenção devota, e, em troca, me oferecia palavras doces que derretiam as minhas defesas. Eu o amei com a força e a cegueira de quem acreditava ter encontrado um refúgio.
Quando recebi a notícia de que havia sido aceita para trabalhar como empregada no castelo, corri para contar a ele. Acreditei que meu novo salário, somado ao soldo dele, nos daria uma vida digna.
Mas a ilusão desmoronou na manhã seguinte.
Eu estava enfileirada no grande salão com as outras criadas novatas, com a cabeça baixa em sinal de respeito. As portas se abriram com estrondo. O ambiente congelou.
— Apresentem suas reverências a Suas Majestades! — ecoou a voz do mordomo-chefe.
Quando reuni coragem para erguer o rosto, o meu mundo inteiro ruiu.
O homem que havia sussurrado juras de amor no meu ouvido estava sentado no trono de Hereford. Não era um oficial. Era o Rei Phillip. E, na poltrona ao lado, com um sorriso sereno e um ar de bondade inquestionável, estava a sua esposa. A Rainha Catharine.
O olhar do rei encontrou o meu no meio da multidão de servos. Por uma fração de segundo, eu vi o pânico cruzar o seu semblante. Mas, rapidamente, a máscara do governante gélido retornou. Ele desviou o rosto, como se eu fosse poeira.
A dor foi tão violenta que mal consegui respirar. Eu queria gritar, mas o terror me paralisou.
Demorou três dias até que nos encontrássemos a sós. Eu estava limpando as pesadas tapeçarias de um corredor vazio na ala oeste quando ouvi passos firmes pararem às minhas costas. O ar de repente ficou sufocante.
— Majestade — murmurei, fazendo uma reverência profunda, com o corpo inteiro tremendo.
— Levante-se, Amélia — a voz dele não tinha a doçura do mercado.
Era cortante, fria. — Olhe para mim.
Ergui o rosto. A mágoa transformou meu medo em fúria.
— Você mentiu. Brincou com a minha vida. Me fez acreditar que éramos iguais, que havia um futuro para nós nas ruas lá embaixo!
Ele travou o maxilar, aproximando-se o suficiente para que eu visse a frieza em suas feições.
— Não seja tola. Foi um delírio. Um erro de um homem sufocado pelas muralhas deste castelo. Eu procurei um momento de paz nas sombras, mas as sombras não sobem ao trono.
— Você tem uma esposa! — disparei, as lágrimas finalmente escorrendo, ignorando o perigo de aumentar o tom de voz. — Você tem um reino! E eu? O que eu sou agora?
— Você é uma serva da coroa — decretou ele, implacável. — O que aconteceu na cidade baixa morreu no momento em que você cruzou os portões deste castelo. Se uma única palavra sair de seus lábios sobre nós, não haverá lugar em Hereford onde você possa se esconder. Entendeu, Amélia? Nenhuma palavra.
Ele deu as costas e desapareceu na escuridão do corredor, levando consigo a garota ingênua que eu costumava ser.
Como se o castigo não fosse suficiente, fui designada para servir diretamente a Rainha Catharine. Ah, como eu desejei odiá-la. Eu procurei falhas nela para justificar minha dor, mas foi impossível.
Certa tarde, enquanto eu arrumava seus lençóis com as mãos trêmulas pela exaustão e pela culpa, a rainha tocou suavemente em meu braço.
— Você parece tão distante, Amélia. Sente-se aqui, apenas um momento.
— É contra as regras, Alteza — respondi, engolindo o nó na garganta e evitando seu olhar complacente. — Sou apenas a sua criada.
— As regras foram feitas por homens que não sabem o peso de uma vassoura ou o peso do choro escondido — Catharine insistiu, forçando-me gentilmente a sentar na beira de sua poltrona.
Ela me olhou com uma empatia que me rasgou por dentro. — Você carrega uma sombra tão grande no peito. Alguém nesta fortaleza a machucou?
O meu coração disparou. A verdade queimava na ponta da minha língua. O seu marido me machucou, Majestade. Ele mentiu para nós duas. Mas eu olhei para o rosto bondoso de Catharine e soube que a verdade a destruiria.
— Não, Majestade... — menti, a voz embargada. — É apenas... saudade de casa. O castelo é muito frio.
— É, sim — ela concordou, com um sorriso triste, olhando para as grandes janelas enevoadas. — Às vezes, sinto que meu marido tenta carregar o mundo em suas costas, e esquece de olhar para as pessoas que vivem nele. Mas você está segura aqui, Amélia. Eu prometo.
Comecei a chorar silenciosamente. Ela afagou meus cabelos, sem saber que estava consolando a amante de seu próprio marido. A culpa me devorou viva naquela tarde.
Algumas luas se passaram. O castelo se preparava para o inverno rigoroso, mas o verdadeiro inverno estava crescendo dentro de mim.
Comecei a desmaiar pelos cantos. As manhãs tornaram-se torturantes; náuseas violentas reviravam meu estômago e o cheiro da comida dos servos me dava asco.
A princípio, acreditei ser a exaustão física aliada à dor emocional. Mas, em uma madrugada gélida, sentada no chão de pedra do meu pequeno quarto, a verdade me atingiu com a força de uma sentença de morte.
Levei as mãos trêmulas ao próprio ventre, o terror arregalando os meus olhos no escuro.
Eu não estava doente. Eu estava grávida.
O pânico foi ensurdecedor. Tapei a própria boca com as duas mãos para abafar o grito que rasgava a minha garganta.
— Não... por favor, não... — eu sussurrava para a escuridão, sentindo meu corpo inteiro estremecer.
Se a corte descobrisse, eu seria enforcada por corromper a linhagem. Se a rainha descobrisse, a dor a mataria. E o rei... o rei que havia me ameaçado naquele corredor certamente me executaria para proteger a sua preciosa coroa de um bastardo.
Naquela pequena cela, as lágrimas secaram. A jovem sonhadora morreu para dar lugar ao monstro necessário para sobreviver. Deslizei as mãos pela minha barriga e, pela primeira vez, falei com a vida que crescia em mim.
— Eles não vão destruir você — prometi num sussurro letal, com a voz carregada de um ódio cego. — O seu pai nos abandonou às sombras. Mas eu serei a sua muralha. Eu esconderei você de todos eles.
A semente de uma nova linhagem havia sido plantada no escuro. E a realeza não tinha a menor ideia de que a sua verdadeira herdeira nasceria escondida, esperando pelo dia em que cobraria o preço de toda aquela dor.
CAPÍTULO 7
OLIVIA
Os corredores de Hereford nunca me pareceram tão estreitos e sufocantes quanto nos meses que se seguiram àquela noite aterradora em meu quarto.
Esconder um segredo na corte já era um ato de sobrevivência; esconder uma vida crescendo dentro de mim era caminhar sobre o fio de uma espada.
Eu passava os dias prendendo a respiração. Meus aventais foram amarrados cada vez mais apertados, esmagando o meu próprio corpo para disfarçar o volume que começava a se anunciar.
As manhãs eram uma tortura silenciosa. O cheiro de carne assada no salão revirava minhas entranhas, e eu precisava correr para os fundos do castelo para vomitar em segredo, lavando o rosto apressadamente com água congelante antes que alguém notasse minha ausência.
Mas as paredes de Hereford têm olhos. E a rainha Catharine, com sua aura eternamente bondosa e atenta, foi a primeira a perceber a minha exaustão.
— Você está pálida, Amélia — disse a rainha certa manhã, sua voz carregada de uma preocupação genuína que me fez tremer.
Ela tentou tocar meu ombro, mas eu recuei instintivamente. — Há dias vejo que mal consegue se manter de pé. Sente dores? Posso chamar o médico real.
— Não! — exclamei, rápido demais, o pânico vazando pela minha voz. Abaixei a cabeça imediatamente, tentando consertar o erro.
— Perdoe-me, Alteza. É apenas o frio do inverno que se aproxima. Não ousaria incomodar o médico com a fraqueza de uma simples criada.
Catharine suspirou, um misto de pena e desconfiança em suas feições. Já o rei... O Rei Phillip não tinha pena. Ele tinha o olhar de um predador calculando o perigo.
A confirmação do meu maior pesadelo aconteceu no final do outono. Eu estava dobrando lençóis na lavanderia isolada quando a porta pesada se fechou com um estrondo seco. A figura imponente do rei preencheu o ambiente. O ar ficou imediatamente rarefeito.
Eu paralisei. Minhas mãos apertaram o tecido branco contra o peito. Ele caminhou lentamente na minha direção, o semblante endurecido pela cólera contida. Seu olhar desceu diretamente para o meu ventre disfarçado pelas dobras do tecido grosso.
— As servas fofocam, Amélia — a voz dele era um sussurro cortante, carregado de ameaça.
— Fofocam sobre os seus enjocos. Sobre o seu cansaço. E sobre o formato de suas roupas.
Meu coração martelava contra as costelas de forma tão violenta que temi que ele pudesse escutar.
— Eu não sei do que Vossa Majestade está falando... — tentei mentir, mas a minha voz vacilou, entregando o meu pavor.
Phillip deu um passo à frente, encurralando-me contra a parede de pedra. A frieza que emanava dele era desumana.
— Não ouse mentir para o seu rei. Eu não sei de que plebeu miserável é esse bastardo que você carrega... mas, se por algum infortúnio dos deuses, esse erro for meu, você sabe muito bem o que deve fazer.
— Majestade, por favor... — implorei, as lágrimas transbordando, a máscara de frieza finalmente quebrando.
— É apenas um bebê. Ele não representa perigo para o seu trono.
— Qualquer sombra sobre a minha linhagem é um perigo! — sibilou o rei, a fúria faiscando em cada palavra.
— Preste muita atenção, Amélia. Se você quiser continuar respirando e trabalhando neste castelo, esse problema desaparecerá. Você terá que abandonar essa criança em uma cidade bem distante daqui. Ninguém, exatamente ninguém, pode saber de sua existência.
— O senhor está me pedindo para descartar o meu próprio filho? — perguntei, a dor rasgando a minha garganta.
— Estou lhe dando a chance de continuar viva — retrucou ele, implacável.
— É o preço do seu silêncio.
Quando o meu oitavo mês chegou, o peso da gravidez já era impossível de esconder, mesmo sob os maiores trapos. O inverno castigava Hereford com ventos gélidos, trazendo a proximidade do Natal. Sabendo que o meu tempo havia acabado, fui até o rei e pedi uma licença. Disse que precisava visitar parentes doentes em uma cidade vizinha e distante.
Ele me encarou do alto de seu trono. Sua expressão era um abismo de indiferença.
— Vá, Amélia.
Mas lembre-se do nosso acordo — declarou o rei perante a corte, suas palavras parecendo um simples aviso de patrão, mas escondendo uma ameaça de morte.
Quando ele se inclinou levemente, apenas para que eu ouvisse, decretou:
— Só ouse pisar nestes portões novamente quando estiver sem essa criança.
Eu apenas assenti, o orgulho despedaçado, e parti.
A viagem na carroça dos mercadores foi agonizante. O sacolejo na estrada esburacada me causava dores lancinantes, mas a dor na minha alma era infinitamente maior.
Duas semanas se passaram naquela cidadezinha esquecida pelo mundo. Eu vivia escondida em uma hospedaria barata, tremendo de frio e de medo.
Foi no dia 28 de dezembro, em uma madrugada onde a tempestade uivava lá fora, que a bolsa se rompeu.
O desespero me arrastou para fora do quarto. Fui guiada pelos moradores locais até a pequena casa de madeira da parteira da cidade, uma mulher chamada Hilda.
Quando ela abriu a porta, o calor de sua lareira e a empatia imediata em seu rosto foram o único conforto que encontrei em meses.
— Venha, minha filha, venha para o fogo! — Hilda me amparou, sentindo a minha exaustão. — Vai ficar tudo bem. Eu vou cuidar de você.
As horas seguintes foram um borrão de gritos, suor e agonia. A dor do parto me rasgava ao meio, mas eu me recusava a desistir.
Eu precisava ver o rosto dela. Eu precisava garantir que ela viveria. E então, num último suspiro de esforço, o choro estridente da minha filha ecoou pela cabana aquecida, cortando o som da tempestade lá fora.
Hilda sorriu, maravilhada, enquanto a limpava em panos macios.
— É uma menina. Uma menina forte e perfeitamente saudável.
Quando a parteira a colocou nos meus braços, o mundo inteiro desapareceu.
Não havia castelo, não havia rei cruel, não havia pobreza. Havia apenas ela. O calor do seu corpinho contra o meu peito fez as minhas lágrimas caírem descontroladamente.
— Olívia... — sussurrei, acariciando o seu rosto miúdo. — O seu nome será Olívia.
Passei aquela noite aninhada com a minha filha. Hilda me preparou uma sopa quente e, exausta, adormeceu na cadeira de balanço no canto do quarto. Eu não dormi. Cada segundo daquela madrugada foi gasto gravando a respiração de Olívia na minha memória. O som do seu pequeno coração batendo contra o meu era a melodia mais triste que eu já ouvira. Porque eu sabia que seria a última vez.
No meio da noite, quando o silêncio da casa era absoluto, eu me levantei. Meu corpo implorava por descanso, mas a urgência de salvá-la era maior. Coloquei Olívia com a maior delicadeza possível no berço improvisado de cestos que Hilda havia arrumado.
Minhas mãos tremiam incontrolavelmente. Enrolei minha menina nos cobertores mais quentes que encontrei.
— Me perdoe... — solucei, a voz abafada pelas minhas próprias mãos para não acordar a parteira.
— A mamãe te ama tanto, minha pequena Olívia. Eu te amo tanto que prefiro morrer a deixá-la ser engolida por Hereford. Sobreviva. Seja luz, meu amor.
Dei um último e demorado beijo em sua testa. O calor daquele toque ficaria marcado na minha alma para a eternidade. Vesti meu manto escuro, abri a porta da cabana e fugi em direção ao frio implacável da tempestade de neve, deixando o meu próprio coração para trás.
Quando a manhã chegou, Hilda acordaria e encontraria apenas o choro de uma bebê abandonada e um pequeno saco de moedas que juntei durante meses. Eu havia partido.
O retorno a Hereford foi um enterro em vida. Quando cruzei os portões de ferro do castelo, eu era uma mulher morta caminhando. Meu ventre estava vazio. Meus braços estavam vazios.
Fui convocada imediatamente aos aposentos reais.
O Rei Phillip estava de pé, observando a neblina espessa através da janela. Quando ele se virou, seus olhos analisaram a minha silhueta reduzida. Não havia alívio em seu rosto, apenas a constatação de que o seu problema havia sido eliminado.
— Majestade — murmurei, fazendo uma reverência profunda, a voz oca, destituída de qualquer sentimento.
O rei se aproximou, o som de seus passos ecoando pela pedra fria.
— É bom ver que foi obediente, Amélia. É bom continuar calada.
Eu levantei o rosto, segurando as lágrimas de ódio.
— Ela está longe. Como o senhor exigiu.
— Que aquela criança permaneça bem longe, onde a miséria a esconda — decretou o monarca, o tom de voz gélido e insensível cravando as últimas estacas na minha sanidade.
— Ninguém pode saber que ela é sua filha. E muito menos que carrega o meu sangue. Estamos entendidos, Amélia? Ou você quer perder este emprego e ter a sua vida, e a dela, completamente arruinadas pelos próximos anos?
— Eu entendi, meu senhor — respondi, engolindo a fúria que fervia no meu peito.
— Ótimo. Agora volte aos seus afazeres. A rainha tem perguntado por você.
Eu dei as costas e caminhei em direção à porta. Enquanto o rei acreditava ter enterrado o seu erro nas sombras, ele não fazia a menor ideia do monstro que acabara de criar. Eu viveria o resto dos meus dias varrendo aquele castelo, sendo pisada por aquela família, suportando calada cada humilhação. Mas tudo seria por um propósito.
CAPÍTULO 8
O MEMBRO FANTASMA
Dizem que, quando um soldado perde um membro no campo de batalha, o corpo continua a senti-lo por anos. O guerreiro sente o frio nas pontas dos dedos que já não existem, ou uma coceira na perna que foi enterrada na lama. É a mente recusando-se a aceitar o pedaço que lhe foi arrancado.
Foi exatamente assim que eu vivi os meus primeiros anos após retornar a Hereford.
A pior parte de abandonar a minha filha não foi a tempestade de neve que enfrentei naquela madrugada, nem a longa jornada de volta na carroça dos mercadores. A pior parte era o silêncio que me aguardava no meu pequeno quarto de serva. Todas as noites, na escuridão, os meus braços formavam um berço instintivo sobre o peito. Eu sentia o peso fantasma de Olívia. Acordava sobressaltada com o som de um choro de bebê ecoando pelas paredes de pedra, apenas para perceber, com o coração aos pedaços, que o choro era o meu próprio.
Eu havia me tornado um fantasma, assombrando os corredores de um castelo que me havia tirado tudo.
A vida de uma empregada na corte de Hereford já era, por si só, uma punição exaustiva. Nós éramos as engrenagens invisíveis que mantinham o luxo da nobreza funcionando. Acordávamos antes do sol, quando o frio ainda cortava a pele, para acender as lareiras, esfregar o chão até que a pedra brilhasse e preparar os banquetes que jamais provaríamos. Mas, após a minha viagem, o trabalho físico se tornou a minha única salvação. Eu esfregava o sangue das caças nos tapetes com uma força desmedida, até as pontas dos meus dedos racharem. Eu carregava baldes de água fervente até que a dor nos ombros anestesiasse a dor na alma.
O verdadeiro suplício, no entanto, não era a exaustão física. Era a convivência.
Servir o Rei Phillip tornou-se um exercício diário de tortura psicológica. Ele me via todos os dias. Eu lhe servia o vinho em sua taça de prata, arrumava os papéis em sua mesa de despachos, permanecia de cabeça baixa enquanto ele debatia o futuro do reino com seus conselheiros. E, para ele, eu não era nada. Uma mobília que respirava.
Certa noite, após o jantar, fiquei encarregada de recolher as bandejas nos aposentos reais. O rei estava sozinho, lendo um pergaminho perto da lareira. Quando me aproximei para retirar a taça, sua mão se moveu abruptamente, segurando o meu pulso com uma força contida, mas ameaçadora.
O ar no quarto pareceu desaparecer. Meu corpo inteiro enrijeceu.
— As servas comentam que você não sorri mais, Amélia — murmurou o rei, sem tirar os olhos do fogo. — Dizem que você voltou da sua viagem como uma mulher oca.
— O meu sorriso não é pago com as moedas da coroa, Majestade — respondi em um sussurro áspero, recusando-me a demonstrar medo. — O meu trabalho, sim. E ele tem sido feito com excelência.
Ele soltou o meu pulso, com uma expressão de desprezo.
— Certifique-se de que a sua melancolia não incomode a rainha. A sua tristeza é irrelevante para Hereford.
Engoli o gosto de bile que subiu à garganta, fiz uma reverência profunda e saí. O ódio que senti por ele naquele momento foi tão intenso que queimou as minhas entranhas. Ele dormia em lençóis de linho, seguro e inabalável, enquanto a sua própria carne, a nossa Olívia, dependia da caridade de estranhos em uma vila miserável.
Mas se a crueldade do rei alimentava a minha fúria, era a bondade da Rainha Catharine que me destruía.
Ao contrário do marido, a rainha enxergava as pessoas. Ela notou a sombra pesada que se instalara sobre os meus ombros e tentou, de todas as formas que sua compaixão permitia, trazer-me de volta à luz. Cada gesto de carinho dela era como sal esfregado em uma ferida aberta.
Em uma tarde cinzenta, enquanto eu escovava seus cabelos diante do espelho, ela segurou a minha mão repentinamente, interrompendo os meus movimentos. Seu olhar pelo espelho transbordava uma empatia que eu não merecia.
— O seu olhar mudou tanto desde que voltou daquela viagem, Amélia — disse ela, a voz mansa, quase maternal. — É como se você estivesse aqui, mas a sua alma tivesse ficado em outro lugar. O que aconteceu na sua ausência?
Eu paralisei. A escova em minha mão pareceu pesar toneladas. Eu desejei gritar a verdade. Desejei cair de joelhos e dizer que o marido dela havia me destruído. Mas a pureza no rosto de Catharine me silenciou.
— Eu perdi algo muito precioso, Alteza — respondi, com a voz embargada, a meia-verdade rasgando a minha garganta. — Algo que eu nunca mais poderei recuperar.
Catharine virou-se e apertou as minhas duas mãos entre as dela.
— O luto é uma tempestade terrível, minha jovem. Mas o tempo sempre encontra uma forma de curar as feridas. Você precisa se permitir viver de novo.
Puxei minhas mãos suavemente das dela, dando um passo para trás em direção às sombras do quarto.
— Com todo o respeito, Majestade... algumas feridas não são feitas para curar. Algumas feridas são a única coisa que nos mantêm vivas.
A rainha não insistiu, mas a pena em sua feição me acompanhou pelo resto do dia. Eu me odiava por enganá-la. Odiava o rei por nos colocar naquela situação. Mas, acima de tudo, eu odiava a minha própria impotência.
Os anos começaram a se arrastar. Enquanto o tempo passava, eu era forçada a assistir ao crescimento do príncipe herdeiro. Eu via os melhores tutores do reino serem trazidos para educá-lo; via os banquetes grandiosos feitos em sua homenagem; via o rei lhe entregar o mundo inteiro em uma bandeja de ouro. E, a cada luxo concedido ao herdeiro legítimo, a minha mente viajava para os casebres frios da cidade vizinha. A minha Olívia estaria comendo o suficiente? Estaria agasalhada? Teria alguém para segurar a sua mão quando estivesse com febre?
A angústia da incerteza quase me enlouqueceu. Houve noites em que cheguei a empacotar as minhas poucas roupas, decidida a fugir e buscá-la. Mas o terror da promessa do rei sempre me parava diante da porta do castelo. Se eu a trouxesse, ou se eu fosse até ela, a fúria da coroa nos alcançaria, e a morte seria o nosso único destino.
Para que a minha filha vivesse, eu precisava continuar sendo ninguém.
Então, eu aprendi a suportar. Eu engoli cada xingamento dos nobres arrogantes que esbarravam em mim nos corredores. Eu suportei os caprichos brutais do rei. Eu me curvei diante de cada injustiça deste reino. Construí, ao redor da minha mente estilhaçada, uma fortaleza de submissão e invisibilidade tão impenetrável quanto as próprias muralhas de Hereford.
Eu deixei de ser a mãe em luto para me tornar a sombra que tudo ouve. O fantasma que nada esquece. A dor parou de ser um fardo e se transformou na minha armadura.
Eles pensaram que haviam me enterrado. O rei acreditou que, ao me afastar da minha filha, havia me quebrado para sempre. Ele apenas não percebeu que, no fundo do poço mais escuro, a única coisa que resta a uma mulher sem esperança é a paciência para planejar a ruína de quem a jogou lá.
CAPÍTULO 9
O ÚLTIMO SUSPIRO DA LUZ
O ano de 1426 marcou o fim da pouca luz que ainda ousava tocar as pedras de Hereford.
Já haviam se passado alguns anos desde a noite em que abandonei a minha Olívia naquela cabana distante. O tempo havia endurecido a minha alma, transformando-me na sombra submissa e silenciosa que o Rei Phillip exigia que eu fosse. Eu acreditava que o meu coração não pudesse se quebrar novamente, que a minha cota de sofrimento nesta corte já estivesse esgotada.
Mas o destino, com o seu humor sádico, estava prestes a provar que o abismo de Hereford era muito mais profundo do que eu imaginava.
Naquela noite nebulosa, o vento uivava contra as vidraças do castelo como um lamento agourento. O frio não apenas castigava as ruas lá fora; ele parecia penetrar os ossos de todos nós que corríamos pelos corredores. O clima era de um pânico sufocante. Eu carregava pilhas de toalhas de linho e bacias de água fervente, apressando o passo em direção aos aposentos reais.
Ao cruzar as pesadas portas de carvalho, o som da agonia me atingiu como um soco.
A Rainha Catharine debatia-se sobre os lençóis. Seus gritos de dor ecoavam pelas paredes de pedra, rasgando a escuridão do ambiente. O esforço extremo drenava as suas forças de forma visível, e a exaustão começava a vencer a sua consciência. Eu me aproximei rapidamente, assumindo o meu posto ao lado do leito, trocando os panos úmidos de sua testa.
Enquanto eu limpava o suor do rosto da rainha, a minha mente me traiu, arrastando-me de volta para a minha própria noite de terror. Lembrei-me do parto de Olívia, na solidão daquela cabana simples, acompanhada apenas por uma parteira desconhecida e pelo medo de ser descoberta. Catharine, por outro lado, estava cercada de luxo, protegida pelas muralhas intransponíveis do castelo e pelo exército de seu marido. E, no entanto, a dor nivelava as nossas almas. A rainha e a serva, ambas dilaceradas pelo mesmo desespero.
— Continue, Alteza, está quase lá! — encorajava a parteira real, com o rosto banhado em suor pela tensão insuportável do momento.
Catharine apertou o meu pulso com uma força surpreendente, as unhas cravando na minha pele. O seu olhar, sempre tão repleto de compaixão, agora transbordava um pavor primitivo.
— Amélia... — ela ofegou, a voz embargada pela dor, puxando o ar com dificuldade. — Prometa-me... prometa que olhará por ele. Que olhará pelos meus filhos.
O meu peito apertou violentamente. Aquela mulher, a esposa do homem que arruinou a minha vida, era a única alma gentil que já havia habitado aquele castelo maldito.
— A senhora mesma olhará por eles, Majestade — respondi, forçando a minha voz a não tremer. — Seja forte. O seu bebê precisa da senhora.
Com um último e agonizante suspiro de força, um grito gutural escapou dos lábios de Catharine, seguido imediatamente pelo choro estridente de uma criança, cortando o silêncio denso que ameaçava se instalar no quarto.
— Nasceu, Alteza Catharine! — a parteira exclamou, tomada por um alívio momentâneo, erguendo o bebê recém-nascido, o pequeno príncipe Edwin. — É um menino forte e perfeitamente saudável!
O choro da criança preencheu o quarto. Mas o alívio durou apenas a fração de um segundo.
Quando olhei de volta para o leito, o terror tomou conta de mim. A resposta que a parteira aguardava não veio. A rainha havia tombado sobre os travesseiros, completamente inerte. A vida parecia ter escoado de seu semblante em um piscar de olhos, substituída por uma imobilidade fúnebre.
— Alteza? — chamou a parteira, o sorriso desaparecendo instantaneamente de suas feições. O pânico substituiu a alegria. Ela sacudiu levemente os ombros da rainha. — Alteza!
O sangue escorria profusamente manchando os lençóis de linho branco, espalhando-se como uma sentença de morte inegável.
— Chamem o médico! — gritou a parteira, a voz esganiçada pelo desespero. — A rainha está desacordada!
Eu deixei os panos caírem das minhas mãos. O mordomo-chefe, que aguardava do lado de fora, ouviu o desespero e saiu às pressas, os seus passos pesados ecoando pelos corredores escuros em busca de socorro. O choro do recém-nascido continuava ininterrupto, um som vibrante de vida que contrastava de maneira brutal e adoecedora com o pânico crescente da morte.
Foi então que as portas se escancararam novamente.
O Rei Phillip invadiu os aposentos. A aura de monarca intocável, a máscara gélida e cruel que eu tanto odiava, havia desaparecido completamente. Ele tinha o olhar arregalado de puro pavor ao ver a esposa imóvel. Toda a sua arrogância se desfez diante da fragilidade humana.
— Minha senhora! — exclamou o rei, caindo pesadamente de joelhos ao lado do leito.
Ele segurou a mão fria de Catharine, colando-a contra o próprio rosto, implorando por uma resposta que jamais viria. O homem que havia sido o meu carrasco, o tirano que me obrigara a abandonar a minha filha nas neves de inverno, agora chorava como um homem quebrado, destruído pela iminência da própria perda.
Eu recuei alguns passos, buscando o abrigo seguro das sombras perto da tapeçaria. Foi quando o meu olhar cruzou com o umbral da porta.
Lá estava o pequeno príncipe Edward.
O filho mais velho da rainha observava todo o acontecimento espantado. Ele estava paralisado. Seus olhos, inocentes e confusos, acompanhavam o desespero da parteira, o choro do irmão que acabara de nascer e, principalmente, a figura de seu pai, o rei todo-poderoso, desmoronando no chão, implorando pela vida da mãe.
A dor que cruzou as feições daquela criança foi indescritível. Não era apenas tristeza; era o exato instante em que o terror se enraizou em sua alma. Eu vi a inocência de Edward ser arrancada à força. O menino que a rainha tanto amava estava morrendo junto com ela, e a frieza que moldaria o homem calculista e implacável do futuro acabara de nascer ali, banhada no sangue da mãe e na fraqueza do pai.
Dei um passo na direção de Edward, movida por um instinto maternal que eu jurara ter enterrado, na intenção de tapar os olhos da criança. Mas antes que eu pudesse alcançá-lo, o médico irrompeu pelas pesadas portas, ofegante.
Ele se aproximou do leito às pressas, afastando a parteira e examinando a situação crítica.
— A rainha apresenta um grande sangramento! — constatou o médico, a tensão deformando suas feições.
Eu permaneci imóvel no canto, o coração batendo na garganta. O médico trabalhou freneticamente. As mãos dele voavam sobre os panos, pressionando, tentando um milagre para estancar a terrível perda, mas era inútil. A vida de Catharine esvaía-se a cada segundo. O quarto foi tomado por um silêncio angustiante, denso e torturante, interrompido apenas pelo choro persistente do recém-nascido e pela respiração arfante do doutor.
Eu observei o Rei Phillip no chão, as mãos trêmulas segurando o tecido ensanguentado, e me perguntei se aquilo era a justiça dos deuses. Ele destruiu a minha vida e escondeu a minha filha. E agora, as muralhas não podiam protegê-lo de perder o amor de sua vida. Eu deveria ter sentido alegria. Deveria ter saboreado a vingança divina. Mas ao olhar para o semblante sem vida de Catharine — a única que me tratou com dignidade —, e para o rosto traumatizado do menino Edward na porta, eu só consegui sentir um luto arrasador.
Após longos e excruciantes momentos, as mãos do médico pararam. O movimento frenético cessou.
Ele abaixou a cabeça, a respiração pesada, os ombros caídos pela derrota. Afastou-se lentamente do leito e procurou o pulso da rainha uma última vez, apenas para confirmar o inevitável.
O Rei Phillip ergueu o rosto banhado em lágrimas, o desespero suplicante estampado em cada traço de sua expressão.
— Majestade... — começou o médico, com a voz embargada e o olhar voltado para o chão frio de pedra, incapaz de encarar a ruína do monarca. — Sinto muito. Ela já está sem sinais vitais e se encontra falecida.
O pranto do rei rompeu como um trovão. Foi um grito arrancado do fundo de sua alma, um lamento ensurdecedor que se juntou ao choro contínuo e inocente do infante Edwin.
Na porta, o príncipe Edward encolheu-se, os olhos fixos na mãe inerte. Nenhuma lágrima caiu de seu rosto; apenas uma escuridão profunda tomou conta de sua expressão.
Naquela noite fria e escura, a realeza saudou o nascimento de uma nova vida, mas pagou o preço amargo da morte de sua rainha. E, escondida nas sombras, secando as lágrimas que ousaram escapar de meus próprios olhos, eu soube que Hereford nunca mais conheceria a paz. O luto apodreceria este castelo. O rei se fecharia em sua própria amargura, o filho mais velho abraçaria a frieza como escudo, e o caçula carregaria para sempre a culpa de ter assassinado a única bondade que aqui existia.
O tabuleiro estava manchado de sangue. E o jogo da nossa ruína havia, finalmente, começado
CAPÍTULO 10
O LUTO E A PEDRA
O sol recusou-se a nascer na manhã seguinte. Em seu lugar, uma neblina densa e asfixiante engoliu a cidade, como se o próprio céu estivesse de luto.
O anúncio não precisou de palavras; os sinos de ferro da torre principal começaram a dobrar ao amanhecer. Era um som arrastado, grave e fúnebre, que desceu a colina e invadiu cada viela, cada casebre e cada mansão. Hereford inteira paralisou. Nos vales afastados, os plebeus largaram suas ferramentas na terra úmida. No centro, os nobres silenciaram suas festas e fecharam as janelas. A notícia se espalhou como uma praga invisível: a rainha, a única alma compassiva que já havia pisado naquelas pedras, estava morta.
Dentro do castelo, caminhávamos como fantasmas. Os corredores, antes preenchidos pelo eco dos passos apressados e das ordens do dia, agora estavam submersos em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelos soluços abafados das criadas pelos cantos.
O meu próprio choro era silencioso, mas a dor que me rasgava o peito era excruciante. Enquanto eu ajudava a preparar os panos negros que cobririam os espelhos do castelo, a ficha finalmente caiu. Catharine se fora. A mulher que havia me oferecido um assento quando eu estava exausta, que havia tocado a minha mão com empatia enquanto o seu próprio marido me destruía pelas sombras. Ela era a única pessoa neste covil de lobos em quem eu podia confiar. A única centelha de bondade. Sem ela, Hereford não era mais um castelo; havia se tornado, definitivamente, uma prisão de gelo. A última luz havia se apagado.
E as trevas não demoraram a reivindicar a família real.
Na ala do berçário, o som era desolador. O infante Edwin chorava ininterruptamente, um pranto agudo que exigia o calor de uma mãe que ele jamais conheceria. As amas de leite corriam de um lado para o outro, tentando acalentá-lo, mas a ausência do afeto materno já pairava sobre aquele berço como uma maldição.
Fui encarregada de levar toalhas limpas aos aposentos reais e, no meio do caminho, encontrei o Rei Phillip.
Ele estava parado no corredor, a poucos passos da porta do berçário. A sua feição era a imagem da mais pura ruína. O monarca inabalável havia desaparecido, dando lugar a um homem devastado, cujos ombros pesavam sob a culpa e a dor insuportável.
— Majestade... — murmurei, fazendo uma reverência hesitante. — O infante precisa de um nome oficial perante o conselho. E precisa... precisa do pai.
O rei fechou os olhos com força, como se a minha voz fosse uma lâmina cravada em sua espinha. Quando ele abriu os olhos, o abismo de sua dor havia se transformado em amargura.
— Façam-no calar a boca — ordenou ele, a voz embargada, recuando um passo da porta do próprio filho. — Deem-lhe o leite, deem-lhe as amas, deem-lhe o que for preciso para que ele pare de chorar. Mas tirem-no de perto de mim. Eu não suporto ouvir esse som.
— Meu senhor, ele é apenas um recém-nascido... — tentei intervir, movida por uma pena angustiante pela criança.
— **Ele é o motivo de ela estar morta!** — esbravejou o rei, a fúria e o desespero estilhaçando a sua compostura. O eco de seu grito fez as amas de leite estremecerem dentro do quarto. Ele virou as costas para o berçário e caminhou a passos pesados para a escuridão de seus aposentos, trancando a porta atrás de si.
Fiquei parada no corredor, o coração apertado. Olhei para a porta fechada do rei e depois para o berçário. *Como esses meninos vão sobreviver?*, pensei, a garganta fechada. Cresceriam sem o amor de uma mãe e com a rejeição declarada de um pai que preferia se afogar no próprio luto a abraçar os filhos.
Foi então que senti uma presença silenciosa.
No final do corredor, escondido parcialmente pelas sombras de uma tapeçaria, estava o primogênito. Edward.
A expressão do menino era a coisa mais assustadora que eu já tinha visto. Ele não chorava. Não havia uma única lágrima em seu rosto infantil. Ele apenas encarava o vazio, tentando processar o caos ao seu redor, o abandono do pai e a morte da mãe. A dor era tão vasta que a mente daquela criança simplesmente desligou, construindo uma muralha para se proteger do terror.
Aproximei-me devagar, ajoelhando-me no chão de pedra para ficar na altura dele.
— Alteza... — sussurrei, tentando oferecer algum conforto. Estendi a mão para tocar seu pequeno ombro. — A sua mãe... ela agora está em paz. Ela sempre olhará por você, de onde estiver.
Edward recuou, escapando do meu toque. Ele me olhou com uma frieza que me causou calafrios.
— Ela não vai olhar por mim — respondeu o menino, a voz desprovida de qualquer emoção, ecoando a mesma dureza incipiente que o pai demonstrava. — Ela me deixou. Por causa dele.
Ele apontou o dedo trêmulo em direção à porta do berçário. O ressentimento já estava plantado. A semente do ódio entre os dois irmãos acabara de ser regada pela ausência da rainha e pela negligência do rei.
O enterro aconteceu no final daquela mesma tarde, sob um céu plúmbeo que ameaçava desabar a qualquer instante.
A cidade inteira parecia ter subido a colina para se despedir. Plebeus com roupas esfarrapadas misturavam-se à nobreza adornada em veludo escuro no grande pátio do castelo. Não havia divisões sociais naquele momento; havia apenas um pranto coletivo. O choro das mulheres da vila ecoava contra as muralhas, lamentando a perda da única realeza que lhes estendera a mão em tempos de fome.
Quando o caixão de madeira entalhada foi carregado para o centro do pátio, o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
O Rei Phillip caminhava logo atrás, a postura alquebrada, recusando-se a olhar para a multidão. Ele parecia um corpo oco. Ao seu lado, Edward marchava com uma rigidez antinatural para uma criança, absorvendo a atmosfera fúnebre sem derramar uma única lágrima.
Escondida entre os servos, no fundo do pátio, eu deixei as minhas próprias lágrimas caírem sem restrições. Chorei pela rainha, chorei pela bondade que estava sendo enterrada naquela cripta fria, e chorei pelo destino amaldiçoado que aguardava a todos nós.
Catharine havia sido o coração de Hereford. E, enquanto o caixão descia para a escuridão da terra, eu soube, com uma certeza aterrorizante, que a partir daquele dia este reino seria governado apenas pelo luto, pelo ressentimento e pelas sombras. As crianças reais cresceriam como ervas daninhas em um solo envenenado. E eu, o fantasma que tudo observava, estaria ali para testemunhar cada tragédia que o futuro, implacavelmente, nos reservava.
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CAPÍTULO 11
O VAZIO E A VERDADE
A sensação de não pertencer a lugar nenhum é como um frio gélido que nasce de dentro para fora, congelando as certezas antes mesmo que elas possam criar raízes.
Olívia, e esse é meu nome. E durante a maior parte da minha vida, acreditei que isso era tudo o que eu precisava saber sobre mim.
Eu cresci na cidade de Gloucester, um lugar distante o suficiente das grandes muralhas de pedra de Hereford para que a vida parecesse mais simples, mais leve. As ruas de Gloucester não cheiravam à melancolia, mas sim a lenha queimada e a pão recém-assado. Foi nesse refúgio que Oliver Bennett e Emily Carter me acolheram. Eles não podiam ter filhos e, quando o destino me colocou no caminho deles, me abraçaram com uma devoção que eu jamais poderei retribuir à altura. A casa deles sempre transbordava calor. Oliver, com sua aura de proteção e gentileza inabalável, e Emily, com seu sorriso maternal que parecia capaz de curar qualquer ferida do mundo.
Mas a verdade tem o péssimo hábito de não permanecer enterrada para sempre.
O meu mundo de certezas absolutas desmoronou há exatos dois anos, quando eu tinha quinze. Foi um tropeço do acaso, um sussurro mal contido entre as vizinhas no mercado, que plantou a semente da dúvida no meu peito. A palavra "adotada" flutuou até mim, cortando o ar como uma lâmina. Cega pelo choque, eu não corri para os braços de Emily e Oliver. Eu corri até a única pessoa que estava presente na noite em que nasci: a velha parteira da cidade, Hilda.
Ainda sinto o cheiro de ervas secas da cabana de Hilda sempre que fecho os olhos. Quando empurrei a porta de madeira naquele dia de outono, o meu coração batia tão forte que eu mal conseguia respirar.
A velha mulher estava sentada perto da lareira. Quando a sua expressão surpresa se transformou em um olhar de pena profunda, eu soube que a minha vida nunca mais seria a mesma.
— Eles não são meus pais, não é? — disparei, a voz embargada, as lágrimas já queimando os meus olhos. — Oliver e Emily... Eles não são o meu sangue.
Hilda abaixou o olhar para as próprias mãos calejadas, o silêncio dela sendo a pior das confirmações.
— Diga-me a verdade, Hilda! — implorei, caindo de joelhos ao lado da cadeira dela, o desespero me consumindo. — Quem era a mulher que me trouxe ao mundo? Onde ela está?
Hilda suspirou, um som pesado e triste, e tocou o meu rosto com uma delicadeza que me fez querer gritar.
— Era uma noite de tempestade terrível, Olívia. Ela chegou até a minha porta exausta, tremendo, quase sem forças. Ela deu à luz a você nestes mesmos lençóis — a parteira apontou para o canto do quarto. — Eu vi o quanto ela chorou quando segurou você. Mas o choro dela... não era de alegria. Era de puro desespero.
— E o que aconteceu? — perguntei, sentindo um nó sufocante na garganta.
— Eu adormeci na cadeira, vencida pelo cansaço — a voz de Hilda vacilou. — Quando o sol nasceu e eu abri os olhos, a porta estava escancarada. O vento frio invadia a casa. O seu berço estava arrumado, e você chorava. Mas ela não estava mais aqui. Ela havia fugido, Olívia. Deixou você para trás, junto com um saco de moedas, e desapareceu na neblina sem olhar para trás.
As palavras me atingiram com a força de um desabamento.
Ela fugiu. Ela me deixou.
— Ela... ela nem sequer disse o nome dela? O nome do meu pai? Nada?
— Nada, minha criança. Ela apenas disse que o seu nome seria Olívia. Foi a única coisa que ela lhe deu antes de abandoná-la.
Eu saí daquela cabana sem rumo. O ar de Gloucester de repente parecia rarefeito. Voltei para casa caminhando como um fantasma, a mente girando em um turbilhão de rejeição. Quando abri a porta, Emily e Oliver estavam pondo a mesa para o jantar. A aura de felicidade deles, que sempre fora o meu porto seguro, agora me parecia uma farsa dolorosa.
— Olívia, meu amor, você está pálida! — exclamou Emily, correndo na minha direção, o rosto tomado pelo pânico ao ver as minhas lágrimas silenciosas.
Eu recuei, fugindo do toque dela.
— Por que vocês mentiram para mim? — a minha voz saiu como um sussurro quebrado, mas soou como um trovão na pequena sala. — Por que nunca me disseram que eu fui descartada?
O choque paralisou Oliver. Emily levou as mãos à boca, os olhos transbordando de imediato. A dor que cruzou as feições dos dois quase me fez recuar, mas a mágoa que pulsava em mim era forte demais.
— Filha... — começou Oliver, a voz grave e trêmula, aproximando-se com a vulnerabilidade de um homem que vê o seu mundo desabar. — Nós queríamos proteger você. Você era tão pequena... tão frágil.
— Me proteger da verdade? — gritei, a raiva se misturando ao choro compulsivo. — De saber que a mulher que me colocou no mundo não me quis? Que os meus próprios pais não me amavam o suficiente para ficar comigo?!
— Nós amamos você! — Emily chorou, diminuindo a distância e, ignorando a minha resistência, abraçou-me com uma força desesperada. — Você não foi descartada, Olívia. Você foi o maior presente que os deuses poderiam ter nos dado! Não importa o sangue, não importa de onde você veio. Você é a nossa filha! Você nasceu do nosso coração!
Eu desabei nos braços de Emily. Oliver nos envolveu em um abraço protetor, chorando conosco no chão da sala. Naquele dia, a dor do abandono e a força do amor incondicional se misturaram dentro de mim, criando uma tempestade que nunca mais cessou.
Agora, aos dezessete anos, eu continuo convivendo com esse luto silencioso.
Emily e Oliver são os meus pais. Eu os amo com cada fibra do meu ser e entendo perfeitamente o motivo de terem escondido a verdade para me poupar da crueldade do meu próprio início. Mas o amor deles, por mais infinito e puro que seja, não consegue preencher o abismo que a minha mãe biológica deixou quando partiu.
Eu sento na varanda de casa todas as noites, observando a escuridão engolir as estradas de Gloucester, e a minha mente me tortura com perguntas sem resposta.
Quem são eles? Por que eu não fui suficiente? Por que ela chorou de desespero ao me segurar? Será que o meu pai biológico sabia que eu existia? Eu sequer tenho um rosto para odiar ou para perdoar. A mulher que me deu a vida é apenas um fantasma sem nome, uma covarde que me jogou nos braços do destino e fugiu.
E, embora eu saiba que investigar o passado pode destruir o porto seguro que Emily e Oliver construíram para mim, a curiosidade se transformou em uma sede insuportável. Eu preciso saber de toda a verdade. Preciso saber de onde venho, qual é a minha história e quem são os monstros que me deixaram para trás.
Mesmo que essa busca me leve diretamente para a escuridão da qual a minha mãe tanto tentou fugir.
CAPÍTULO 12
O RETORNO AO SOLO ENVENENADO
O tempo em Hereford é uma entidade cruel. Ele não cura; ele apenas enterra as feridas sob camadas de poeira e silêncio. Nos dias que antecederam o fatídico casamento, o castelo fervilhava com os preparativos para receber a princesa Isabel de Alvernia.
Entre as muitas formalidades exigidas, estava a escolha de sua dama de companhia.
Eu fui designada para servir a sala de espera. O meu dever era o de sempre: ser uma sombra invisível, deslizando com uma bandeja de prata nas mãos, servindo água e vinho às candidatas que aguardavam a aprovação da futura rainha.
A porta de carvalho se abriu com um estrondo contido. O príncipe Edward surgiu no umbral, a sua postura impenetrável e fria de costume.
Ao seu lado estava Isabel. A aura da princesa contrastava violentamente com a do herdeiro; enquanto ele parecia esculpido no próprio gelo da fortaleza, ela irradiava uma leveza tensa, a angústia de uma jovem presa a um destino forçado transparecendo em seus gestos contidos. Edward sequer olhou para as moças na sala. Ele apenas deixou Isabel na porta, deu-lhe as costas sem proferir uma única palavra de encorajamento e desapareceu pelo corredor.
Isabel suspirou, o peso do abandono e do dever pesando em seus ombros, e tomou o seu lugar na poltrona central.
As entrevistas começaram. Eu me posicionei no canto mais escuro do salão, perfeitamente mesclada às tapeçarias, enchendo as taças de forma mecânica. Passaram-se várias moças da alta nobreza. Filhas de lordes e duques, todas com sorrisos ensaiados, vozes estridentes e uma ambição vazia que transbordava em cada palavra. Elas falavam sobre etiqueta, sobre o clima e sobre o privilégio de servir à coroa. Isabel escutava a todas com polidez, mas a decepção em seu semblante era evidente. Ela não queria um papagaio da corte; ela queria alguém real. Alguém em quem pudesse confiar no meio daquele ninho de víboras.
Até que a última candidata foi chamada.
Uma jovem avançou para o centro da sala. A postura dela não tinha a arrogância das nobres anteriores, mas carregava uma dignidade inabalável, uma força silenciosa que dominou o ambiente instantaneamente.
— Qual é o seu nome, senhorita? — perguntou Isabel, a voz suave ecoando pelas paredes de pedra.
— Olívia, Alteza.
O som daquela palavra, daquela voz, me atingiu com a força de um soco no estômago.
Os meus pulmões pararam de funcionar. A bandeja de prata em minhas mãos tremeu de forma quase imperceptível, e eu precisei apertar o metal com tanta força que os meus dedos adormeceram. Eu recuei um passo, pressionando as costas contra a parede de pedra fria para não desabar.
Vinte e seis anos. Vinte e seis anos de um silêncio torturante, de noites em claro imaginando o choro de um bebê, e agora... ela estava ali. A poucos passos de mim. A minha menina. A semente que eu plantei na escuridão havia retornado ao solo envenenado de Hereford.
— Olívia... — repetiu Isabel, com um sorriso brando e curioso. — Não reconheço o seu sobrenome entre as casas nobres de Hereford. De onde você vem?
A jovem ergueu o queixo. Havia uma sinceridade desarmante em sua expressão, uma coragem de quem não tinha nada a esconder.
— Eu não venho de uma casa nobre, Alteza. Venho de Gloucester — respondeu Olívia, a voz firme, mas carregada de uma emoção palpável. — Fui criada por Oliver e Emily Bennett.
Eles construíram a vida com as próprias mãos, e graças ao trabalho duro deles, tornaram-se donos de uma grande fábrica de vinhos na nossa cidade. Mas... eles são os meus pais adotivos.
Isabel inclinou-se para frente, a polidez aristocrática dando lugar a uma empatia genuína. O tédio das entrevistas anteriores sumiu do rosto da princesa.
— Adotivos? — perguntou Isabel, a voz mansa, convidando a jovem a continuar.
Do meu canto escuro, eu mal conseguia enxergar através das lágrimas que embaçavam a minha visão. O meu coração batia tão forte contra as minhas costelas que temi que o som ecoasse pela sala.
— Sim, Alteza — Olívia suspirou, a sombra de uma mágoa antiga cruzando o seu semblante. — Quando eu era apenas uma recém-nascida, fui deixada pela minha mãe biológica em uma noite de tempestade. Ela me abandonou aos cuidados de uma parteira local e desapareceu. Eu nunca soube o nome dela, nem o do meu pai. Fui um fardo largado ao vento. Se não fosse pela caridade e pelo amor infinito da família Bennett, eu não teria sobrevivido.
Isabel ouvia encarecidamente, absorvendo cada palavra com o coração aberto. A princesa, que se sentia uma prisioneira dentro de seu próprio casamento arranjado, reconheceu imediatamente a dor da ausência de escolha. Ela viu em Olívia o reflexo de alguém que conhecia o sofrimento, alguém que não estava ali para jogar os jogos sujos da realeza, mas para lutar pelo próprio espaço.
— E por que você veio para Hereford, Olívia? Deixou uma vida confortável em Gloucester para se submeter às muralhas frias deste castelo?
— Porque eu preciso de respostas, Alteza — respondeu a minha filha, a determinação faiscando em suas palavras. — Os meus pais adotivos me apoiaram quando soube desta vaga. Eu vim para Hereford não apenas para servir com honra e lealdade a quem me der a chance, mas porque eu sinto, no fundo da minha alma, que as minhas raízes estão nesta cidade. Eu vim em busca da verdade sobre quem eu sou.
O ar sumiu da sala. Eu estava em outro mundo.
A minha mente gritava, o pânico e o amor lutando ferozmente dentro de mim. Ela estava ali. A minha Olívia. Viva, forte, dona de si. Mas o horror da situação me sufocava. Ela estava pedindo trabalho sob o mesmo teto do homem que me obrigou a abandoná-la. Ela estava na casa de seu pai, o Rei Phillip. O lugar onde foi prometido que ela jamais poderia pisar. Se o rei desconfiasse, se ele ouvisse a história da criança abandonada há vinte e seis anos, ele ligaria os pontos. Ele faria de tudo para destruí-la. Mas, por enquanto, o rei não sabia. Ele ignorava o nome dela, ignorava a sua sobrevivência. E eu, presa às sombras daquela sala, não podia dar um único passo em direção a ela.
Isabel levantou-se lentamente da poltrona. A princesa caminhou até Olívia, e o brilho de cumplicidade em seu rosto foi a sentença final.
— As cortes estão cheias de pessoas que nasceram com tudo e não valorizam nada — declarou Isabel, a voz soando como um bálsamo de esperança. — Eu não preciso de uma nobre para me dizer como sorrir. Eu preciso de alguém que saiba o peso do mundo e que, ainda assim, escolha a lealdade e o bem.
A princesa virou-se para as portas do salão, a decisão selada em sua postura.
— Estão dispensadas as demais. Eu já fiz a minha escolha. Olívia será a minha nova dama de companhia.
A jovem abaixou a cabeça em uma reverência de profunda gratidão. Eu, encolhida nas sombras da parede, apertei a bandeja contra o meu peito para conter o soluço que rasgava a minha garganta.
O tabuleiro de Hereford havia acabado de virar de cabeça para baixo. A herdeira legítima, o sangue rejeitado do rei, acabara de ser infiltrada no coração da coroa, pela mão da própria princesa. Os caminhos haviam se cruzado de forma irreversível. E eu sabia, enquanto observava a minha filha agradecer à sua nova senhora, que a partir daquela manhã, a atmosfera densa do castelo — que desaguaria no tenso dia seguinte após o casamento — seria o palco não apenas de uma união instável, mas do início da queda de toda uma realeza.
CAPÍTULO 13
O VENENO E A COROA
A presença de Olívia no castelo mudou a espessura do ar que eu respirava. Desde o dia em que a vi curvar-se diante da princesa Isabel e aceitar o posto de dama de companhia, os corredores de Hereford pareceram encolher. Eu caminhava rente às paredes de pedra, esfregando o chão e polindo as pratas, mas os meus ouvidos e os meus olhos estavam sempre voltados para a ala leste.
Ver a minha filha cruzar o salão, com a postura elegante e o olhar brilhante — os mesmos olhos azuis de seu pai, o homem que nos arruinou —, era uma tortura agridoce. Como a própria princesa Isabel havia pressentido durante a entrevista, as duas logo estabeleceram um laço forte. A princesa encontrou na minha menina o porto seguro que o seu marido, o implacável Edward, lhe negava diariamente.
Mas, enquanto a ala leste exalava uma inocência frágil e cheia de esperança, as sombras da ala oeste engrossavam e tornavam-se letais. Hereford apodrecia de dentro para fora, e o epicentro dessa podridão eram os aposentos do Rei Phillip.
O monarca estava morrendo.
Para a corte, para os médicos reais e para os plebeus lá embaixo, o declínio do rei era o triste e natural definhar de um homem consumido pelo luto. A tosse seca que ecoava pelas madrugadas, a palidez cadavérica e a fraqueza que o impedia de se levantar do trono sem ajuda eram atribuídas à idade e à dor da perda da rainha Catharine, uma ferida que jamais cicatrizou.
Mas eu sou a sombra que tudo vê. E os segredos que essas paredes de pedra guardam são muito mais sujos do que a tristeza de um viúvo.
A verdade me foi revelada em uma noite gélida, dias após o tenso casamento real. Eu estava incumbida de limpar o gabinete privado do príncipe primogênito. O silêncio no cômodo era absoluto, quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira. Quando ouvi passos pesados e decididos se aproximando no corredor, agi por puro instinto de sobrevivência. Deslizei para trás da pesada estante de livros, misturando-me à escuridão justaposta à tapeçaria.
A porta de carvalho rangeu. Edward entrou, seguido por seu servo mais leal, um homem esguio e silencioso chamado Thomas, que vivia como um cão de caça fiel à sombra do príncipe.
— A porta está trancada? — a voz de Edward soou baixa, mas afiada como uma lâmina recém-forjada.
— Sim, Vossa Alteza — respondeu o servo.
Edward caminhou até a sua mesa, serviu-se de uma taça de vinho escuro e sentou-se.
— Os médicos reais estiveram com o meu pai esta tarde. Qual foi o diagnóstico deles, Thomas?
O servo aproximou-se da mesa, baixando ainda mais o tom de voz, garantindo que o som não escapasse pelas frestas.
— O médico-chefe informou que a tosse piorou consideravelmente. Ele acredita que o coração do rei está falhando. O senhor sabe, Alteza... eles continuam convictos de que é a melancolia arrastando-o para o túmulo da rainha.
Edward deu um gole no vinho, e a sombra de um sorriso perverso, desprovido de qualquer calor humano, desenhou-se em seus lábios.
— A melancolia é uma doença extremamente conveniente, Thomas. Ela esconde muito bem o trabalho das folhas de dedaleiras.
Prendi a respiração no meu esconderijo, apertando as mãos contra a saia do avental. Dedaleira. Uma planta medicinal comum nos vales da nossa região, usada em doses mínimas pelos curandeiros para tratar dores crônicas no peito. Mas, se administrada de forma contínua e em doses crescentes, a planta deixava de ser um remédio para se tornar um veneno invisível e implacável. Ela paralisava o coração aos poucos, exaurindo a vítima sem levantar a menor suspeita de assassinato. Eu tinha um conhecimento medicinal e sabia do poder dessa planta.
— Tem certeza de que ninguém nas cozinhas notou a alteração? — questionou o príncipe herdeiro, estreitando os olhos azuis e gélidos.
— Absoluta, Alteza. A criada responsável por preparar a infusão noturna do rei é cega de um olho e idosa demais para notar o que coloco na panela. O extrato da planta está sendo ministrado gota a gota, todas as noites. Exatamente como ordenou. O rei está tão entorpecido pela própria dor e pelo vinho que não percebe o amargor do chá.
Edward levantou-se e virou-se para a janela, contemplando a neblina que cobria o reino que ele estava disposto a usurpar.
— Excelente. O meu pai tornou-se um homem fraco, Thomas. Um fantasma sentado num trono que já deveria ser meu há anos. Hereford precisa de punho de ferro e um exército marchando, não de um velho tossindo sangue e chorando pelos cantos. A cada gota de dedaleira que ele engole, estamos não apenas encerrando o sofrimento patético dele, mas garantindo o avanço dessa coroa. Quando ele der o seu último suspiro, o meu poder será absoluto.
— E quanto ao príncipe Edwin, meu senhor? — indagou o servo, hesitante.
A expressão de Edward escureceu instantaneamente. O ódio ancestral pelo irmão sempre vinha à tona.
— O descontrole de Edwin será a sua própria força. Quando o rei morrer, o inútil do meu irmão estará ocupado demais chorando e se culpando pelo passado. Eu serei aclamado rei antes mesmo que o corpo do meu pai esfrie na cripta.
A conversa terminou ali. Eles saíram do gabinete, deixando-me trêmula no escuro. A ambição de Edward era tão desmedida e doentia que o sangue de seu próprio pai não passava de um obstáculo descartável; um degrau em sua escada para a grandeza.
Na noite seguinte, a dinâmica daquele jogo macabro se materializou de forma crua diante dos meus olhos.
Fui chamada aos aposentos reais para auxiliar com o fogo da lareira e servir as bandejas de prata. O quarto exalava um cheiro pesado de ervas queimadas e morte iminente. O Rei Phillip estava recostado em sua poltrona, pálido como cera, os olhos afundados em olheiras arroxeadas.
Ao seu lado, em uma ironia asquerosa, estava Edward. O príncipe herdeiro fingia com maestria uma postura de filho zeloso, segurando um pergaminho que dizia estar lendo para distrair o pai.
Foi quando as grandes portas se abriram abruptamente. Edwin invadiu o quarto.
Ele ainda exibia uma leve marca amarelada do soco de Edward no dia do casamento, mas o seu rosto estava tomado pela preocupação genuína. O caçula impulsivo havia deixado de lado a mágoa recente para tentar, mais uma vez na vida, alcançar a aprovação e a saúde do pai.
— Pai... os criados me disseram que a sua tosse piorou hoje — disse Edwin, aproximando-se com passos largos, o coração bondoso superando o rancor acumulado. — Eu mandei chamar um curandeiro das montanhas. Disseram-me que ele conhece raízes limpas que...
— Saia. — A voz do rei soou arrastada, rouca, mas carregada do mesmo desprezo cortante de sempre.
Edwin travou no lugar, como se tivesse levado outro soco físico.
— Majestade, por favor... o senhor não está bem. Deixe-me ajudar, eu imploro.
Edward levantou-se da cadeira com uma calma calculada, colocando o pergaminho sobre a pequena mesa redonda.
— Você não ouviu o nosso pai, Edwin? — a voz de Edward era mansa, carregada de um sarcasmo venenoso. — A sua presença apenas agita o coração frágil dele. Você nunca soube trazer paz a esta família. Sugiro que volte aos seus próprios aposentos e deixe os cuidados de quem importa para mim.
A fúria cruzou o rosto de Edwin. O seu temperamento emotivo tomou as rédeas. Ele deu um passo agressivo na direção de Edward, os punhos cerrados.
— E você se importa com a paz dele, Edward?! — gritou o caçula, a dor transbordando na voz. — Você age como um abutre esperando a carcaça esfriar! Pensa que não vejo a sua ansiedade asquerosa por esta coroa?
— Basta! — rugiu o Rei Phillip. O esforço foi grande demais para os seus pulmões fracos, resultando em uma crise de tosse violenta que fez o seu corpo curvar-se na cadeira.
O rei levou um pano branco de linho à boca. Quando o afastou, manchas grossas e escarlates de sangue tingiam o tecido. Edwin arregalou os olhos, em pânico, pronto para ampará-lo, mas o rei ergueu a mão trêmula, impedindo o caçula de dar mais um passo em sua direção.
— Você... — o rei ofegou, olhando para Edwin com um ressentimento brutal e injusto. — Você carrega a morte com você desde a noite em que nasceu, garoto. Se você quer de verdade que eu tenha paz... apenas desapareça da minha vista.
A rejeição rasgou a alma de Edwin ao meio. O jovem príncipe recuou lentamente, as lágrimas de frustração e dor queimando os seus olhos azuis. Ele olhou para Edward, que sustentava um sorriso vitorioso e quase imperceptível, e então girou nos calcanhares, abandonando os aposentos em um silêncio esmagador.
Fiquei no canto, completamente imóvel, segurando o jarro de vinho.
O rei tossiu mais uma vez e recostou a cabeça, fechando os olhos em profunda exaustão.
— Sirva o meu chá noturno, Amélia — ordenou ele, a respiração falhando, sem sequer abrir os olhos para me olhar.
Caminhei em passos mudos até a pequena mesa ao lado de sua cama. Lá estava a xícara de prata, recém-trazida das cozinhas. O chá fumegante. O chá temperado com as gotas mortais e invisíveis da dedaleira, meticulosamente encomendadas pelo próprio primogênito ali presente.
Eu segurei a xícara pela alça quente. Os meus olhos castanhos encontraram o reflexo da figura decrépita do rei no grande espelho escuro do quarto. Eu sabia exatamente o que estava naquela bebida. Se eu "acidentalmente" derrubasse a taça no chão, se eu gritasse e denunciasse o plano pérfido de Edward para a guarda real, eu poderia salvar a vida do monarca. Eu poderia estragar o assassinato perfeito.
Mas, enquanto as minhas mãos tocavam a prata, a memória daquela noite de nevasca me atingiu com a força de um furacão.
Eu ouvi em minha mente o choro desesperado da minha filha recém-nascida. Senti o frio enrijecendo os meus dedos quando tive que beijar a testa de Olívia e abandoná-la aos cuidados de um estranho, ameaçada de morte pelo homem que agora definhava na minha frente. O homem egoísta que escondeu a própria carne e arruinou o meu futuro apenas para proteger as aparências de sua coroa.
Ele não merece a minha salvação.
E, acima de tudo, a minha mente estrategista, forjada nas sombras, fez os cálculos de forma fria e certeira. Eu precisava que o rei morresse. A morte dele seria a faísca inescapável que incendiaria este castelo. Com o rei morto e os irmãos Edward e Edwin deflagrando a sua guerra inevitável pelo trono, as fundações de Hereford iriam desmoronar em sangue e caos. E isso abriria o caminho perfeito, através das cinzas, para que a verdadeira herdeira — a bastarda rejeitada, a minha Olívia — tomasse o que lhe era de direito.
Eu aproximei a xícara envenenada dos lábios secos do rei.
— O seu chá, Majestade — murmurei, com a voz tão mansa e terrivelmente vazia quanto a própria morte que o aguardava.
Phillip bebeu a infusão venenosa até a última gota, agradecendo em um resmungo rouco, sem fazer a menor ideia de que o seu filho mais velho preparara o seu túmulo, e que a empregada invisível que ele julgara irrelevante foi quem cordialmente trancou a tampa do seu caixão.
Os segredos das muralhas de Hereford são espadas afiadas no escuro. E eu, após tantos anos apenas apanhando, finalmente havia começado a usá-las.
CAPÍTULO 14
LAÇOS INVISÍVEIS
A manhã seguinte àquela em que servi a xícara envenenada ao Rei Phillip amanheceu com um silêncio ainda mais fúnebre do que o normal. A neblina lá fora parecia ter invadido as frestas das janelas de Hereford, arrastando-se pelo chão de pedra como um fantasma aguardando a ceifa.
Os murmúrios já corriam soltos entre os criados nas cozinhas e nos corredores: o rei não havia conseguido se levantar da cama. A tosse da madrugada fora tão violenta que os médicos reais foram chamados às pressas antes mesmo do sol nascer.
Eu, varrendo os tapetes do corredor principal, apenas ouvia a agitação com a cabeça baixa, sabendo perfeitamente que as gotas de dedaleira do príncipe Edward estavam fazendo o seu trabalho sombrio.
A tensão no castelo era palpável, como a corda de um arco esticada ao limite. Precisando escapar daquele ar carregado de morte por apenas alguns instantes, recolhi meus panos de limpeza e me refugiei no jardim de inverno da ala leste, um anexo envidraçado e pouco frequentado, repleto de roseiras pálidas e trepadeiras retorcidas.
Era o meu santuário silencioso. Pelo menos, até ouvir o som de passos leves e hesitantes ecoando contra o piso de mármore frio.
Virei-me devagar, pronta para fazer a reverência de costume, mas o meu coração deu um salto e descompassou.
Era Olívia.
Ela usava um vestido simples de lã escura, adequado para uma dama de companhia, mas o seu rosto estava abatido. Seus longos cabelos pretos caíam soltos pelos ombros, e os olhos azuis — tão tragicamente idênticos aos do rei que morria do outro lado do castelo — refletiam uma exaustão profunda. Mal ela sabia que quem estava morrendo do outro lado era seu pai…
Ao me ver ali, esfregando as folhas de uma planta seca, ela parou, parecendo quase envergonhada por ter invadido o espaço.
— Oh, perdoe-me. Eu não queria interromper o seu trabalho, Amélia — disse Olívia, a voz suave carregando um tom de desculpa sincera que ninguém da realeza jamais usaria com uma empregada.
— A senhorita não interrompe nada — respondi, forçando a minha voz a sair firme, embora as minhas mãos tremessem levemente sob o avental. — Aconteceu alguma coisa? A princesa Isabel precisa de mim?
Olívia suspirou, abraçando o próprio corpo para espantar o frio que emanava das vidraças. Ela caminhou lentamente até um dos bancos de pedra próximos a mim e sentou-se.
— A princesa está dormindo. Ela passou a noite em claro, muito angustiada com os gritos e a movimentação vinda dos aposentos do rei — Olívia desviou o olhar para o céu cinzento lá fora. — O ar deste castelo... ele é sempre tão asfixiante, Amélia? Parece que a pedra suga a alegria das pessoas.
Aproximei-me com cautela, mantendo a distância respeitosa que a minha posição exigia, mas a minha alma de mãe gritava para abraçá-la.
— Hereford respira o luto há décadas, senhorita Olívia. A pedra absorve a dor daqueles que vivem entre elas — falei, medindo cada palavra. — O rei está muito doente. E o desespero traz o pior dos homens à tona.
Ela concordou com a cabeça, a expressão nublada por uma tristeza que me cortava o peito.
— Eu vi o príncipe Edwin no corredor mais cedo. Ele parecia completamente destruído. O príncipe Edward, por outro lado, caminhava como se já estivesse experimentando o peso da coroa. Como dois irmãos podem se odiar tanto? — Olívia olhou para as próprias mãos, esfregando-as. — Às vezes, me pergunto por que os deuses me trouxeram para cá. A princesa Isabel é um anjo, mas este lugar... este lugar faz as pessoas ficarem cruéis.
Ouvir aquilo partiu algo dentro de mim. O medo de que a podridão de Hereford corrompesse a minha menina era o meu maior pesadelo. Dei mais um passo em sua direção, esquecendo por um momento que eu era apenas a mobília daquele castelo.
— A senhorita tem uma luz própria que as sombras de Hereford desconhecem — murmurei, a voz carregada de uma emoção rouca que não consegui disfarçar. — Não permita que a escuridão deles apague quem a senhorita é.
Olívia ergueu o rosto e me olhou. Os olhos dela mergulharam nos meus com uma curiosidade terna e vulnerável. O silêncio entre nós não era o silêncio constrangedor entre uma nobre e uma serva; era um reconhecimento invisível, um puxão gravitacional que nenhuma das duas conseguia explicar.
— Você é sempre tão gentil comigo, Amélia — disse ela, esboçando um pequeno e frágil sorriso. — As outras criadas me olham de soslaio por eu não ter sangue nobre. Mas você... você me olha como se me conhecesse.
Engoli em seco, o nó na garganta quase me sufocando. Eu te conheço desde o seu primeiro suspiro, pensei, sentindo as lágrimas ameaçarem transbordar. Eu conheço o som do seu coração batendo contra o meu peito.
— Eu conheço a dor de estar deslocada, senhorita — respondi, usando meias-verdades para me proteger. — Sei que a senhorita veio de muito longe. De Gloucester, ouvi dizer. Deixou os seus para trás.
A menção à sua história fez o sorriso de Olívia desvanecer, dando lugar a uma vulnerabilidade infantil.
— Eu deixei os meus pais adotivos. Eles me amam muito... — a voz dela embargou levemente. — Mas a verdade, Amélia, é que eu vim para cá procurando a mulher que me abandonou. Pensei que, estando perto da corte, ouvindo as histórias do reino, eu pudesse encontrar alguma pista de quem me deu a vida.
O meu coração parou de bater. Apertei os dedos contra o tecido áspero da minha saia.
— E o que a senhorita faria se a encontrasse? — perguntei, quase num sussurro, o pavor e a esperança lutando brutalmente dentro de mim. — A senhorita a odiaria?
Olívia pareceu refletir por um longo momento, observando uma rosa branca e solitária no meio do jardim de inverno.
— Durante muito tempo, eu senti raiva — confessou ela, a voz tremendo. — Senti que eu não havia sido suficiente para que ela ficasse. Mas, desde que pisei neste castelo e vi o horror, o medo e as traições que as pessoas são capazes de cometer... eu comecei a pensar diferente.
Ela olhou diretamente nos meus olhos, e a pureza de suas palavras foi o golpe mais misericordioso que eu já recebi na vida.
— Talvez... talvez ela não tenha fugido por covardia. Talvez as coisas fossem tão terríveis para ela, que ela tenha me deixado para me salvar. Se eu a visse hoje, acho que não perguntaria por que ela me abandonou. Eu só perguntaria se... se doeu ter que ir embora.
Uma lágrima quente, solitária e rebelde, escapou do meu olho esquerdo e traçou um caminho pelo meu rosto marcado pelo tempo. Eu não consegui segurá-la.
Olívia arregalou os olhos levemente, surpresa com a minha reação.
— Amélia? Você está chorando?
— O vento deste jardim... — menti rapidamente, secando o rosto com as costas da mão, tentando recompor a minha máscara impassível. Mas falhei. O amor de mãe foi mais forte do que a serva invisível.
Sem pensar nas regras da corte, agi por puro instinto. As mãos de Olívia ainda estavam apoiadas no banco de pedra, trêmulas de frio. Eu me aproximei, tirei as minhas luvas de limpeza, e segurei as mãos dela entre as minhas. Eram tão pequenas, tão delicadas. Comecei a esfregá-las devagar, transmitindo o calor do meu corpo para o dela.
— Suas mãos estão geladas, minha menina — sussurrei, a palavra "menina" escapando como um carinho contido.
Olívia não recuou. Ela não puxou as mãos de volta, como faria com qualquer outra criada insolente. Pelo contrário, os ombros dela relaxaram. Ela fechou os olhos por uma fração de segundo, absorvendo o conforto daquele toque simples, como se aquele calor lhe fosse estranhamente familiar.
— Acredite em mim, senhorita Olívia — continuei, a voz trêmula, olhando fixamente para as nossas mãos unidas. — Se a sua mãe teve que deixá-la, foi porque a amava mais do que a própria vida. E doeu... doeu todos os dias, a cada vez que ela abriu os olhos. Ela jamais a esqueceu.
A respiração de Olívia engatou. Ela apertou os meus dedos gentilmente, visivelmente emocionada com as minhas palavras, encontrando ali o perdão que ela tanto precisava ouvir, mesmo sem saber que o estava recebendo da fonte verdadeira.
— Obrigada, Amélia — murmurou Olívia, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas. — Você tem filhos?
O abismo se abriu sob os meus pés. Olhei para o rosto lindo da minha filha, tão perto do meu, e respirei fundo.
— Eu tive o mundo inteiro em meus braços uma vez — respondi com a voz embargada, sorrindo tristemente. — Mas a vida me exigiu que eu o soltasse. Hoje, a minha única função é garantir que a justiça seja feita.
O eco de passos distantes no corredor de fora quebrou a nossa bolha de intimidade. Era o som inconfundível de guardas correndo e criados murmurando alto. A agonia no castelo estava escalando. A dedaleira estava cumprindo o seu papel.
Soltei as mãos dela com relutância, recuando um passo e voltando imediatamente à postura submissa de uma empregada de Hereford.
— A senhorita deve voltar para a princesa Isabel. Ela precisará de toda a sua força hoje — aconselhei, recolhendo os meus panos. — O castelo vai tremer antes do anoitecer. Fique longe do príncipe Edward. E fique longe dos aposentos do rei.
Olívia assentiu, levantando-se. Ela tocou o próprio peito, parecendo mais leve, como se aquela breve conversa tivesse curado uma ferida de anos.
— Farei isso. Cuidado por esses corredores, Amélia.
— Eu sou apenas uma sombra, senhorita. As sombras nada temem.
Observei Olívia desaparecer pela porta de vidro, voltando para os perigosos corredores de pedra. As minhas mãos ainda formigavam com o toque da pele dela. Aquele breve instante foi o mais perto que cheguei de abraçá-la em vinte e seis anos.
Eu estava certa. A minha filha era pura, era justa e era merecedora de muito mais do que os restos de Hereford. Ela tinha a bondade de Isabel e a resiliência que eu fui obrigada a forjar.
Enquanto os sinos começavam a tocar de forma errática na torre principal — anunciando o estado gravíssimo do monarca envenenado pelo próprio primogênito —, eu soube que não havia mais volta. O Rei Phillip morreria. Os irmãos se matariam. E eu não recuaria um único centímetro.
Se o inferno precisasse desabar sobre Hereford para que as mãos de Olívia segurassem aquela coroa, eu mesma acenderia o fogo.
CAPÍTULO 15
O PESO DA COROA
Os sinos da torre principal de Hereford não apenas tocavam; eles gritavam. O som de ferro batendo contra ferro reverberava pelas pedras do castelo, rasgando a neblina e anunciando a todos que a morte havia cruzado os nossos portões.
Enquanto eu caminhava pelos corredores, o calor das mãos de Olívia — que eu acabara de segurar no jardim de inverno — pareceu evaporar, substituído rapidamente pelo frio cortante da realidade. O castelo havia se transformado em um formigueiro em pânico. Criadas corriam com bacias de água que já não serviam para nada; guardas reais batiam as lanças no chão de pedra, assumindo posições defensivas nas entradas principais. O cheiro de cera derretida, suor e medo empesteava o ar.
Eu deslizei para a ante-sala dos aposentos reais, o lugar onde a nobreza e o conselho se aglomeravam como abutres sentindo o cheiro de carniça. Posicionei-me estrategicamente no canto mais escuro, perto das pesadas cortinas de veludo, com uma jarra de vinho nas mãos. A minha invisibilidade era o meu escudo e a minha principal arma.
A pesada porta de carvalho do quarto do rei estava fechada, guardada por dois soldados que suavam frio. Do lado de fora, a tensão política fervia.
Foi quando as portas da ante-sala se escancararam com brutalidade. Edwin irrompeu pelo recinto. Os cabelos loiros, sempre tão bem alinhados, estavam revoltos. A marca amarelada em seu rosto — herança do soco de Edward — parecia ainda mais tensa sob a expressão de fúria contida.
Logo atrás dele, caminhando com a lentidão calculada de um predador, vinha Edward. O príncipe herdeiro não tinha um único fio de cabelo fora do lugar. A frieza em seus olhos azuis contrastava de forma doentia com o desespero do irmão mais novo.
— Onde está o curandeiro das montanhas?! — gritou Edwin, a voz trovejando pela sala e calando os murmúrios dos lordes presentes. Ele virou-se bruscamente para o irmão. — Eu dei ordens expressas para que ele fosse trazido aos aposentos de nosso pai!
Edward parou no centro da sala, ajustando os anéis em seus dedos com uma indiferença que faria o diabo sentir frio.
— O seu curandeiro foi barrado nos portões inferiores, Edwin — respondeu Edward, a voz monótona e implacável. — Este castelo não será infestado por charlatões. O rei de Hereford está sob os cuidados dos médicos reais, como manda a tradição.
— Os médicos reais não estão fazendo nada além de assisti-lo sangrar e tossir até a morte! — esbravejou Edwin, dando um passo ameaçador na direção do irmão. — Você revogou a minha ordem? Você o condenou?
— Eu o protegi da sua histeria — rebateu Edward, erguendo o queixo, a postura de quase dois metros de altura dominando o espaço. — O coração de nosso pai está falhando. O tempo dele chegou. Quanto mais rápido você aceitar a realidade, em vez de se guiar por essas suas emoções infantis, mais rápido este reino terá paz.
Edwin soltou uma risada amarga, sem qualquer humor, os olhos azuis faiscando de ódio. O temperamento impulsivo do caçula colidiu frontalmente com a muralha de gelo do primogênito.
— Paz? Você ousa falar de paz? — Edwin diminuiu a distância entre eles, o dedo em riste quase tocando o peito do irmão. — Você não está de luto, Edward. Você está contando os minutos. Pensa que eu não vejo? Pensa que esses lordes não veem a sua ânsia por vestir a coroa dele antes mesmo que o corpo esfrie?
Um silêncio sepulcral engoliu a ante-sala. Os conselheiros prenderam a respiração. A acusação era grave, beirava a traição, mas, naquelas paredes, era a mais pura e cristalina verdade. Eu apertei a alça da jarra de vinho, lembrando-me das gotas de dedaleira que o próprio Edward mandara colocar no chá do pai.
Edward não recuou. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, um sorriso de escárnio brincando no canto dos lábios.
— Eu sou o primogênito. A coroa é o meu direito de nascença, o meu dever político. E, ao contrário de você, cujo único legado para esta família foi o de assassinar a nossa mãe no parto, eu pretendo liderar Hereford para o futuro.
A menção à rainha Catharine foi um golpe baixo, cirúrgico. A ferida que sangrava há vinte e quatro anos no peito de Edwin se abriu diante de todos. Vi o caçula trincar o maxilar, a dor ofuscando a sua raiva por uma fração de segundo.
Mas Edwin não era mais o menino assustado que se escondia nas sombras. A sua diplomacia, a facilidade com que conquistava reinos vizinhos e o carinho que o povo nutria por seu coração bondoso lhe davam uma força que as espadas de Edward não podiam cortar.
— Você pode ter o exército, Edward — sussurrou Edwin, a voz agora perigosamente calma, carregada de uma promessa letal. — Mas metade dos lordes nesta sala, e todo o povo lá fora, sabem que você é um tirano. Se você pensa que marcharei para o exílio ou me curvarei enquanto você afunda Hereford em trevas, está muito enganado. Eu protegerei este reino de você.
Antes que Edward pudesse responder à ameaça aberta de guerra civil, o som pesado da maçaneta girando atraiu a atenção de todos.
A porta do quarto real se abriu. O médico-chefe apareceu no umbral. As suas mãos, manchadas de sangue e fuligem das ervas queimadas, tremiam. Ele não precisou dizer uma palavra; a palidez em seu rosto foi a sentença.
— Acabou... — murmurou o médico, curvando-se profundamente, sem ter coragem de erguer os olhos.
— O Rei Phillip exalou o seu último suspiro.
A ante-sala mergulhou em um vazio atordoante.
Vi Edwin fechar os olhos e recuar um passo, como se o chão tivesse desaparecido. Ele levará a vida inteira buscando a aprovação de um pai que morreu odiando-o. A dor do caçula era palpável e silenciosa.
Edward, por sua vez, fechou os olhos apenas por um segundo — não por luto, mas para saborear a vitória letal de seu próprio veneno. Quando os abriu, não havia mais príncipe herdeiro ali. Havia apenas a sombra do rei absoluto.
— O rei está morto — declarou Edward, a voz ecoando pelas abóbadas de pedra, exigente e sombria. Ele virou-se para os lordes presentes e, em seguida, para o próprio irmão. — Longa vida ao rei.
Lentamente, um a um, movidos pelo medo ou pela lealdade comprada, os conselheiros e generais começaram a se ajoelhar no chão de pedra. O som das armaduras dobrando-se preencheu a sala.
Mas um homem permaneceu de pé.
Edwin.
Os dois irmãos se encararam no centro da sala. A divisão estava cravada ali, profunda e irreversível. Hereford agora tinha dois lobos famintos no mesmo território, mas apenas uma coroa.
— Ajoelhe-se, Edwin — exigiu Edward, os olhos transbordando uma autoridade ameaçadora. — É a sua última chance de demonstrar respeito ao seu novo soberano.
— O meu soberano morreu ali dentro — respondeu Edwin, com o peito subindo e descendo de forma compassada. Ele olhou com nojo para os lordes curvados e voltou os olhos para o irmão. — Não espere lealdade de quem você só sabe ferir.
Sem fazer reverência, sem derramar uma lágrima na frente de seus inimigos, Edwin deu as costas e marchou para fora da ante-sala. O som de seus passos largos foi o som do primeiro tambor de guerra.
Do meu canto escuro, servi vinho na taça de um dos generais que ainda tremia. A minha mente borbulhava em um cálculo frenético. Edward envenenou o pai; Edwin, impulsionado pela fúria, acabara de declarar guerra. O banho de sangue que eu previ não era mais um pesadelo distante; ele começaria nas próximas luas.
Olívia estava lá fora, no meio de tudo isso. A verdadeira herdeira desse reino caótico. E, enquanto as duas feras reais se preparavam para se despedaçar pelos corredores, caberia a mim, a empregada que ninguém notava, proteger a princesa Isabel e a minha filha, costurando em silêncio a rede que faria todos eles despencarem.
O Rei Phillip podia estar morto, mas as suas mentiras continuavam bem vivas. E eu as usaria como forca.
CAPÍTULO 16
O ECO DO CAOS
A morte tem um cheiro peculiar. Não é apenas o odor metálico do sangue ou o perfume adocicado e enjoativo dos lírios e incensos usados para disfarçar a decomposição. A morte, quando caminha pelos corredores de Hereford, cheira a cera derretida, a suor frio e ao terror absoluto.
O sol já havia se erguido além das colinas, mas a sua luz não conseguiu penetrar a espessa muralha de neblina que engoliu o castelo naquela manhã. Os sinos da torre principal continuavam a dobrar, um som de luto arrastado, repetitivo, que martelava o crânio de todos nós. O Rei Phillip estava morto. E o reino inteiro, desde os nobres em seus aposentos de veludo até os plebeus chafurdando na lama dos vales, sentiu o impacto do abismo se abrindo sob os nossos pés.
Nas cozinhas, o caos era o verdadeiro soberano. Eu esfregava com força o balcão de madeira, mantendo a cabeça baixa e os ouvidos atentos, enquanto o burburinho corria como fogo em palha seca entre os criados.
— Eu vi quando os médicos saíram — sussurrou Marta, a cozinheira-chefe, com os olhos arregalados, enquanto picava legumes de forma errática. — O rosto do rei estava cinzento, mas os lábios... os lábios estavam roxos como amoras esmagadas!
— Você está louca, Marta. Fale baixo! — repreendeu um dos guardas, que havia entrado para pegar pão quente, olhando para os lados com paranoia. — Quer perder a língua? O rei morreu de melancolia. O coração não aguentou o peso da saudade da Rainha Catharine.
— Saudade não deixa os lábios roxos, Thomas! — retrucou uma das jovens copeiras, esfregando as mãos no avental sujo. — As criadas do andar de cima estão dizendo que foi veneno. Uma morte rápida demais. Ele estava tossindo, sim, mas caminhou até a janela na tarde de ontem! Alguém colocou algo na taça dele!
— Cale a boca, menina tola! — sibilei, interrompendo a discussão com uma aspereza que raramente usava. Todos na cozinha pararam e olharam para mim. A minha voz saiu baixa, mas cortante como vidro quebrado. — Se o Príncipe Edward, o nosso novo rei, ouvir que os criados estão espalhando rumores de assassinato, ele mandará enforcar metade desta cozinha antes do anoitecer. O rei morreu. A nossa função é limpar o castelo e preparar o funeral, não investigar o que pertence aos lordes. Voltem ao trabalho.
Eles engoliram em seco e voltaram aos seus afazeres, aterrorizados com a verdade das minhas palavras. Eu voltei a esfregar a madeira. O meu coração batia em um ritmo doloroso. Fui eu quem serviu o chá. Fui eu quem levou a dedaleira que o primogênito encomendou até os lábios do monarca. A culpa e o triunfo travavam uma guerra sangrenta dentro do meu peito, mas eu não podia me dar ao luxo de me fraquejar. Hereford agora era um campo minado.
Recolhi uma bandeja com pão fresco, queijo e um bule de chá de camomila — chá limpo, desta vez — e subi as escadas em direção à ala leste. Eu precisava ver como a minha filha estava.
Quando alcancei os aposentos da Princesa Isabel, a porta estava entreaberta. O clima lá dentro era desolador. O quarto, que no dia anterior irradiava a luz das sedas de Alvernia, agora parecia ter sido engolido pelas sombras. As cortinas pesadas haviam sido cerradas.
Isabel estava sentada na beirada da cama, o rosto pálido e banhado em lágrimas silenciosas. Ao lado dela, Olívia — a minha Olívia — segurava as suas mãos, sussurrando palavras de conforto com uma firmeza que me encheu de orgulho.
Entrei silenciosamente, pousando a bandeja sobre a mesa de centro. O leve tinido da porcelana fez Isabel erguer o olhar.
— Amélia... — a voz da princesa saiu embargada, trêmula. Ela parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite. — Você ouviu os sinos. Você sabe o que estão dizendo lá fora?
Fiz uma reverência profunda, mantendo as mãos cruzadas sobre o avental.
— O castelo inteiro sabe, Alteza. O Rei Phillip nos deixou.
Isabel soltou um soluço contido, levando as mãos ao rosto. Olívia abraçou-a de lado, os olhos azuis encontrando os meus com uma angústia compartilhada.
— Não é apenas isso, Amélia — disse Olívia, a voz firme, embora o medo estivesse escondido nas entrelinhas de sua postura. — A princesa está apavorada. O príncipe Edward agora é o rei absoluto. E há sussurros... sussurros terríveis pelos corredores. Os soldados estão trancando os portões. Ninguém entra ou sai sem a permissão dele.
Isabel levantou o rosto, os olhos verdes brilhando de pavor. A ingenuidade bondosa que ela trouxe de Alvernia estava sendo esmagada sob as pedras de Hereford.
— Eu me casei com ele há poucos dias, Amélia. Poucos dias! — a jovem rainha consorte tremia da cabeça aos pés. — E na mesma madrugada, o pai dele cai morto em seus aposentos? Eu vi o olhar de Edward no altar. Eu vi o vazio dentro dele. Eles estão dizendo que foi veneno! Se ele foi capaz de assassinar o próprio pai para usurpar a coroa... o que ele fará comigo quando eu não for mais útil para a aliança?
Aproximei-me da cama, ignorando os protocolos reais. Despejei o chá de camomila em uma xícara e estendi para Isabel. As mãos dela tremiam tanto que Olívia precisou ajudá-la a segurar a porcelana.
— Beba, Alteza. Acalmará os nervos — ordenei com brandura. Em seguida, olhei fixamente para as duas. O laço invisível que me prendia à minha filha gritava para que eu a agarrasse e fugisse, mas o meu cérebro de estrategista sabia que a única saída era a vitória.
— O que dizem nos corredores não importa mais — falei, escolhendo as palavras com um cuidado letal. — Em Hereford, a verdade é apenas aquilo que o dono da espada mais afiada decide que é. O príncipe Edward agora é a lei. Se Vossa Alteza deseja sobreviver a este ninho de víboras, a bondade que trouxe de casa não pode mais ser uma fraqueza. Terá que ser a sua armadura.
Olívia levantou-se, assumindo uma postura protetora diante da princesa.
— E como nos protegemos de um monstro que acabou de assumir o trono, Amélia? — perguntou a minha filha, o tom de voz tão idêntico ao do Rei Phillip que por um segundo me faltou o ar. Era a mesma autoridade inerente ao sangue que corria em suas veias, um sangue que ela ainda desconhecia possuir.
— Com silêncio. Com observação. E com alianças — respondi, sustentando o olhar de Olívia, tentando transmitir a ela toda a força que eu possuía. — O príncipe Edwin não deixará que isso passe impune. Ele é impulsivo, mas é amado pelo exército inferior e pelos lordes mais antigos. O caos que se instaurou hoje é apenas a faísca. A verdadeira guerra vai começar quando os deuses virarem as costas para este castelo. Senhorita Olívia, Vossa Alteza precisa que a senhorita seja os olhos e ouvidos dela onde ela não puder estar.
— Eu não sairei do lado dela — prometeu Olívia, segurando a mão de Isabel com uma lealdade inabalável. — Custará a minha vida, se necessário, mas eu a protegerei.
Não, eu gritei em minha mente. Você não morrerá por eles. Você nascerá através das cinzas deles. Mas, exteriormente, eu apenas acenei com a cabeça, peguei a minha bandeja vazia e me retirei para as sombras, onde o meu trabalho verdadeiro precisava continuar.
O castelo logo mergulhou em uma tensão diplomática sufocante. Poucas horas depois, enquanto a chuva começava a fustigar as janelas em um temporal violento, o som das trombetas ecoou novamente, não por luto, mas por aviso.
Os portões de ferro se abriram sob o temporal. A comitiva de Alvernia, que havia partido poucas horas após o casamento, foi forçada a dar meia-volta no meio da estrada de lama. O Rei Afonso e a Rainha Beatrice retornavam a Hereford, agora não com flores e sorrisos, mas com capas encharcadas, escudos levantados e feições tempestuosas.
Eu estava limpando as cinzas da grande lareira do Salão Principal quando eles irromperam pelas portas duplas.
Edward já os aguardava, sentado de forma imponente — e não oficial — na cadeira que pertencia ao seu pai, logo abaixo do trono vazio. O herdeiro vestia negro dos pés à cabeça. Ao lado dele, o conselho de lordes tremia, e a guarda real segurava firmemente os cabos das espadas.
Afonso marchou pelo centro do salão, ignorando as formalidades de luto, os olhos castanhos chispando de fúria e suspeita. Beatrice vinha logo atrás, o rosto tomado pelo desespero maternal, buscando Isabel com os olhos.
— Majestade Afonso. — A voz de Edward soou fria e controlada, ecoando no salão de pedra. Ele não se levantou da cadeira. — Retornaram mais cedo do que esperávamos. Acomodem-se. Hereford lamenta recebê-los em um momento de tamanho infortúnio.
Afonso parou a poucos metros de Edward. A diferença entre os dois monarcas era palpável: Afonso era um diplomata, um homem de paz; Edward era a personificação da guerra gélida.
— Infortúnio? — repetiu Afonso, a voz grave vibrando de tensão. — Partimos deste castelo ontem à tarde, sob a promessa de uma aliança sólida, deixando o Rei Phillip vivo e brindando no banquete. E hoje, debaixo de uma tempestade, meus batedores são alcançados por corvos anunciando que o pai de meu genro tombou morto no meio da noite?
— O coração do meu pai estava fraco, Rei Afonso. A perda da minha mãe, a rainha Catharine, cobrou o seu pedágio final. Os médicos atestaram o óbito por causas naturais decorrentes de sua exaustão.
— Não subestime a minha inteligência, Edward! — disparou Afonso, dando um passo à frente, o que fez dois guardas de Hereford puxarem levemente as espadas. Afonso ergueu a mão, parando seus próprios soldados. — Homens não caem mortos da noite para o dia sem que a praga da traição esteja no ar! Onde está a minha filha?
As grandes portas laterais se abriram. Isabel, pálida e amparada por Olívia, entrou no salão em passos miúdos. Ao ver os pais, a princesa soltou um gemido sôfrego e correu.
— Mamãe! Pai! — Isabel se jogou nos braços da Rainha Beatrice, desabando em um choro que dilacerou o coração de qualquer um que ainda tivesse humanidade naquele salão.
Olívia permaneceu a poucos passos de distância, a postura reta, guardando a retaguarda de sua senhora. Os olhos da minha filha varriam o salão, analisando os lordes, memorizando as reações. Eu a observava do canto da lareira, extasiada com a inteligência instintiva que ela exalava.
Edward assistiu à cena do reencontro familiar com uma apatia doentia. Ele encostou o cotovelo no braço da cadeira e repousou o queixo sobre a mão.
— A Rainha Consorte de Hereford está segura, Rei Afonso — disse Edward, enfatizando o título para lembrar a todos que Isabel agora pertencia a ele, e não mais a Alvernia. — A histeria do luto está nublando o seu julgamento. O nosso reino chora a perda do monarca, mas a transição deve ser ordeira. A nossa aliança continua de pé.
— A nossa aliança foi feita com o Rei Phillip! — rugiu uma voz estrondosa, vinda das sombras das pilastras opostas.
Todos se viraram. Edwin surgiu no salão.
Se a presença de Edward esfriava o ar, a chegada de Edwin o incendiava. O príncipe mais novo parecia estar há horas sem dormir. A marca amarelada do soco de Edward em seu rosto parecia ter latejado sob a dor, mas os seus olhos azuis estavam acesos com um fogo de revolta incontrolável. Ele caminhou até parar exatamente no meio do caminho entre Edward e a comitiva de Alvernia.
— Edwin... — advertiu Edward, os olhos estreitando-se, a voz carregando uma ameaça de morte silenciosa. — Controle-se. Este não é o momento para os seus rompantes emocionais.
— Não me chame de emocional para mascarar a sua tirania, assassino! — gritou Edwin, a voz reverberando nas abóbadas do castelo, tão alta que até os criados mais distantes puderam ouvir.
O salão mergulhou no mais completo pânico. O Rei Afonso arregalou os olhos. Isabel apertou o vestido da mãe com força.
— O que você ousa insinuar, seu insolente? — rosnou Edward, finalmente se levantando da cadeira, a paciência rompendo as suas bordas.
— Eu não insinuo, eu afirmo! — rebateu Edwin, aproximando-se do trono, o peito estufado, sem medo do exército do irmão. — Você e o seu cão, Thomas, barraram o curandeiro das montanhas nos portões! Você isolou o nosso pai com os seus médicos comprados! Todo o castelo sussurra sobre o chá noturno, Edward. Os lábios roxos dele. A tosse que se transformou em hemorragia de uma hora para a outra! Você o envenenou para adiantar a sua posse!
O choque da acusação fez os lordes recuarem. Um murmúrio desesperado tomou conta do conselho. Traição. Regicídio. A pena para aquilo era a fogueira, mesmo para um príncipe.
— Guardas! — ordenou Edward, a voz fria e imperativa cortando o ar como um chicote. — Prendam o meu irmão. O luto enlouqueceu a sua mente fraca. Ele está cuspindo calúnias contra a coroa.
Os guardas hesitaram. Meia dúzia deles deu um passo à frente, com as mãos nas lanças, mas outra metade dos guardas — aqueles leais ao coração bondoso e justo de Edwin — permaneceu imóvel, bloqueando o caminho dos demais com o corpo.
O exército interno estava rachado ao meio, exatamente como o reino.
— Vocês vão levantar a espada contra o sangue do rei? — desafiou Edwin, olhando diretamente para os soldados. — Eu prometo aos senhores que, se a verdade não for escavada dos túmulos hoje, amanhã será o pescoço de vocês que ele cortará.
O Rei Afonso de Alvernia deu um passo à frente, colocando-se como escudo diante da esposa e da filha, os olhos indo de Edward para Edwin.
— Basta desta loucura em minha presença! — trovejou o Rei Afonso. Ele apontou o dedo para Edward. — Eu vim para chorar a morte de um aliado político e enterrá-lo com dignidade, mas me encontro no meio de um golpe sangrento. Saiba, Edward, que se um único fio de cabelo de Isabel for tocado neste ninho de serpentes, ou se ficar provado que as palavras de seu irmão são verdadeiras... Alvernia não trará flores em nossa próxima visita. Nós traremos fogo e aço.
Edward travou o maxilar. Os seus olhos encontraram os do Rei Afonso e, percebendo que uma guerra com Alvernia naquele instante arruinaria os seus planos de consolidação do trono interno, o primogênito engoliu o próprio veneno.
Ele levantou a mão, ordenando aos guardas que recuassem. O sorriso frio voltou aos seus lábios.
— Palavras ao vento de um irmão ressentido e louco de dor, Majestade Afonso. Nenhuma prova sustentará essa calúnia. O funeral de meu pai será realizado ao anoitecer, nas criptas inferiores de Hereford. Nós enterramos os nossos mortos, e amanhã, o sol nascerá sobre o meu reinado. Vocês estão convidados a se juntarem à cerimônia. E, depois disso, a justiça será feita contra qualquer traidor.
Edward deu as costas e marchou para fora do salão, seguido de perto por Thomas e pelos lordes que já haviam escolhido o seu lado.
Edwin permaneceu no centro do salão, ofegante, o ódio fervendo nas veias. Ele olhou para Isabel, para Olívia e para o Rei Afonso, e num movimento de puro respeito, curvou a cabeça levemente, pedindo desculpas pela explosão, antes de sair a passos largos pela porta oposta.
As peças do xadrez haviam se posicionado. Hereford agora era uma casa dividida.
O crepúsculo desceu sobre o castelo não com a escuridão da noite, mas com um manto de melancolia insuportável. As chuvas ainda castigavam os vitrais quando os ritos fúnebres começaram.
Fui incumbida de carregar as tochas de incenso ao longo dos corredores úmidos que levavam até as criptas ancestrais da família real, no subsolo do castelo. O frio lá embaixo era paralisante. As paredes de pedra bruta vertiam água, e o cheiro da terra molhada se misturava ao perfume do bálsamo fúnebre.
No centro da cripta redonda, sob a luz tremeluzente de dezenas de tochas dispostas em suportes de ferro, o caixão aberto do Rei Phillip repousava sobre o pedestal de mármore.
Eu permaneci nas sombras das grossas colunas, invisível e esquecida, com os olhos cravados no rosto sem vida do monarca. A pele dele, esticada e maquiada pelas parteiras fúnebres, não conseguia esconder totalmente o rastro pálido que o veneno deixara. E pensar que foi pelas mãos de um tirano e através da covardia daquele mesmo homem deitado ali que a minha vida fora arruinada. O Rei Phillip me obrigou a abandonar o meu bebê na neve para proteger aquela maldita coroa de sangue. E agora, a coroa lhe fora arrancada por seu próprio filho. O destino possui uma ironia sádica, fria e implacável.
A nobreza de Hereford foi se aglomerando em silêncio. Plebeus selecionados choravam ao fundo.
A comitiva de Alvernia permaneceu em um bloco sólido, isolado no lado direito da cripta. Isabel tremia encostada em sua mãe, os olhos verdes fitando o caixão com terror. Olívia permanecia inabalável, meio passo atrás, os olhos astutos memorizando quem chorava de verdade e quem apenas fingia.
Edward entrou primeiro, acompanhado por um séquito de guardas fortemente armados. A presença de lâminas desnudadas em um funeral real era um sacrilégio, uma afronta direta às tradições, mas ninguém ousou murmurar. O primogênito caminhou lentamente até a beira do caixão. Ele parou, olhando para o rosto do pai por longos minutos. O que passava na mente daquele homem calculista, ninguém jamais saberia. Ele ergueu a mão, tocou a borda de madeira do ataúde de forma encenada, e virou-se para a multidão para discursar.
— Hoje, as muralhas de Hereford perdem o seu pilar — começou Edward, a voz grave e perfeitamente ritmada, ecoando nas abóbadas úmidas. A falsidade de suas palavras me embrulhou o estômago. — Meu pai, o Rei Phillip, carregou o peso de um reino com honra. O luto pela minha amada mãe consumiu a sua saúde, provando que o amor que ele nutria por esta família foi, no fim, a sua maior batalha. Eu juro diante dos deuses e destas pedras que o seu legado não cairá. A minha coroa pesará sobre os meus ombros, mas será erguida com a força do exército de Hereford, garantindo que nenhum inimigo, interno ou externo, destrua a nossa paz.
Ele terminou o seu discurso virando o olhar de forma ameaçadora para o fundo da cripta.
Foi então que o murmúrio da multidão se abriu como o Mar Vermelho, dando passagem.
Edwin caminhou pelo corredor de lordes, as botas afundando na fina camada de água que escorria pelo chão da cripta. O caçula não trazia guardas consigo, nem armaduras vistosas. Ele trazia apenas a sua espada na bainha e a dor crua escancarada no rosto.
O príncipe mais novo parou diante do caixão, do lado oposto a Edward. O silêncio na cripta era tão denso que podíamos ouvir a cera das velas gotejando no chão.
Edwin esticou a mão trêmula e tocou o peito do pai morto. Uma lágrima silenciosa, densa e pesada, escorreu pelo seu rosto machucado. Vinte e quatro anos implorando por um único olhar de amor, por uma única palavra de perdão pelo crime de ter nascido. Ele nunca conseguiu. E agora, o tempo havia acabado. O vazio perigoso deixado por aquela rejeição se transformou em combustível.
Edwin ergueu o rosto, banhado em lágrimas, mas os seus olhos azuis ardiam com uma fúria selvagem quando ele encarou o irmão do outro lado do caixão.
— Você fala de honra, Edward — a voz de Edwin rasgou a cripta, rouca pelo choro reprimido. Ele puxou a espada da bainha com um estrondo de aço deslizando sobre o couro. O som fez os lordes gritarem em choque, e os guardas de Edward derem um passo à frente, apontando as lanças.
Afonso de Alvernia cobriu Isabel com a capa. Olívia levou a mão rapidamente à própria cintura, onde eu sabia que ela carregava uma pequena adaga escondida desde que chegara da vila. O caos parecia a poucos segundos de explodir.
Mas Edwin não atacou. Ele ergueu a lâmina nua no ar, e com uma força descomunal, a cravou profundamente na pedra do chão, aos pés do túmulo de seu pai.
O som da lâmina perfurando a rocha ecoou como um trovão.
— Eu não prestarei juramento a um usurpador. Eu não reconheço a sua coroa manchada de veneno! — declarou Edwin, com o peito subindo e descendo violentamente, o rosto tomado por uma dignidade brutal, voltando o seu olhar para todos os nobres presentes e, finalmente, cruzando os olhos com Isabel. Ele viu a piedade e a esperança nos olhos da princesa. E depois, os olhos do príncipe encontraram os de Olívia. Um elo invisível de empatia — o sangue real clamando por justiça, mesmo que a minha filha ignorasse o porquê.
Edwin voltou o seu olhar feroz para o primogênito.
— Que as muralhas de Hereford sejam testemunhas! — proclamou o caçula, a sua voz vibrando com um poder que faria tremer o próprio além. — A guerra está declarada. Se você quer o trono, Edward... terá que passar por cima do meu cadáver para mantê-lo. Eu purificarei este castelo da sua podridão, ou afundarei junto com ele!
Sem esperar qualquer resposta ou ordem de prisão, Edwin deu as costas, abandonou a sua espada fincada na pedra como um símbolo de desafio absoluto e marchou para fora da cripta. Metade dos soldados leais, comovidos pela sua dor e coragem, formou um paredão instantâneo às suas costas, cobrindo a sua saída, desobedecendo abertamente as ordens dos comandantes de Edward.
A guerra não estava mais nos sussurros. A guerra havia nascido na tumba do rei.
O tumulto dominou o funeral. Gritos começaram a eclodir entre os lordes que apoiavam o primogênito e aqueles que, em choque, começaram a duvidar da morte do monarca. Edward, com a frieza de uma gárgula letal, ergueu o queixo, ordenando a Thomas em um murmúrio quase inaudível que a guarda fechasse as barreiras do pátio superior e impedisse que o exército de Edwin se armasse nos estábulos.
No meio do desespero dos nobres, da poeira que subia e dos gritos agoniados dos plebeus do lado de fora das grades, eu escorreguei pelas sombras da colunata, aproximando-me do grupo da princesa.
A comitiva de Alvernia estava recuando às pressas para as escadarias laterais, tentando fugir do banho de sangue iminente. O Rei Afonso puxava Isabel, aos gritos, chamando por seus soldados pessoais.
No meio da confusão, um lorde enfurecido, sacando a espada de forma desajeitada, esbarrou com violência em Olívia, empurrando a minha menina contra a parede fria de pedra da cripta.
Ela caiu de joelhos no chão molhado.
— Olívia! — gritei internamente, o meu corpo se movendo antes mesmo que a minha mente autorizasse.
Atravessei as fileiras de pessoas apavoradas como uma leoa em chamas. Agachei-me ao lado dela no meio do caos e, num movimento rápido e desesperado, agarrei os braços dela, puxando-a para o escuro, longe da multidão em pânico que ameaçava pisoteá-la.
O peito dela subia e descia descompassadamente. Ela ofegava, as mãos sujas de lama, tentando se reerguer.
— Amélia... — ela murmurou, os olhos azuis arregalados, surpresa por me ver surgir do nada.
Eu a encostei contra a pedra áspera, os nossos rostos a poucos centímetros de distância. A confusão e os gritos de traição continuavam a estourar pelo salão mortuário, mas, naquele instante minúsculo, entre a sombra de um caixão e as espadas puxadas, o tempo parou para nós duas.
O meu peito doía tanto que senti o gosto de sangue na boca. Ali estava ela. A legítima rainha. Escondida no meio da sujeira e da fumaça, rejeitada por toda a vida, enquanto os seus meio-irmãos rasgavam o reino ao meio pelo poder.
Passei as minhas mãos ásperas pelo rosto de Olívia, limpando a terra de sua bochecha pálida com uma ternura desesperada. Eu quebrei todas as barreiras. Toquei no cabelo que a rainha morta jamais pôde tocar, olhei nos olhos azuis do rei sem sentir nojo, apenas um amor dilacerante.
— Escute-me com muita atenção, menina... — sussurrei com ferocidade, apertando os ombros dela com uma força protetora, as minhas palavras carregando o peso de duas décadas de dor acumulada. — O sangue está prestes a manchar os lençóis de Hereford. Edward e Edwin não pararão até que a garganta de um seja cortada. Não confie no silêncio de Edward, e tome extremo cuidado com a dor de Edwin. Eles são tempestades em colisão.
Olívia me olhava, hipnotizada, incapaz de entender por que uma simples serva idosa estava agindo com a fúria e o amor de um cão de guarda divino.
— Por que você está se arriscando por mim? Amélia, você pode ser morta por estar aqui comigo, no meio deste fogo cruzado! — Olívia agarrou os meus pulsos, implorando com os olhos para que eu recuasse.
Eu sorri, um sorriso amargo, quebrado, mas cheio de uma esperança brutal.
— Porque este reino não pertence à escuridão deles, Olívia. Ele nunca pertenceu. — Apertei a mão dela uma última vez, memorizando cada traço de seu rosto, prometendo aos deuses antigos que ela reinaria, mesmo que o custo fosse a minha cabeça na guilhotina. — Proteja a princesa. Sobreviva à noite. Eu estarei nas sombras, organizando o tabuleiro para vocês.
Antes que ela pudesse me questionar, antes que pudesse decifrar o mistério enraizado na minha voz embargada, eu dei as costas. Desapareci no meio da multidão histérica da cripta, mergulhando de volta na minha invisibilidade perfeitamente calculada.
A porta do inferno foi escancarada em Hereford. O rei jazia frio sob o mármore, os dois príncipes afiavam as suas lâminas nos corredores e a comitiva de Alvernia tremia encurralada.
Eles pensavam que estavam travando uma guerra pelo trono. Mas não sabiam que a verdadeira herdeira já caminhava entre eles, e que a criada silenciosa que esfregava o seu sangue no chão acabara de começar a tecer a corda com a qual todos eles seriam enforcados. O luto havia terminado; agora, era a hora da nossa vingança.
CAPÍTULO 17
A PÓLVORA E A VERDADE
O caos não ficou restrito às criptas úmidas. A promessa de guerra que Edwin fizera sobre o túmulo do Rei Phillip germinou ali, no subsolo, mas floresceu em um banho de sangue nas escadarias do castelo. O que antes eram sussurros e intrigas de corredor transformou-se no som ensurdecedor do aço batendo contra o aço, de ossos quebrando e de homens gritando enquanto morriam nas lajes de Hereford.
Edward havia dado a ordem para trancar os portões superiores. Ele queria sufocar o motim de Edwin antes que o caçula pudesse chegar aos estábulos e armar a totalidade de suas tropas. O castelo virou uma ratoeira.
Quando me afastei de Olívia na cripta, deixando a minha menina protegida pelas sombras, eu não fugi para me esconder. Eu corri para as passagens secretas dos servos — os corredores estreitos e escuros encravados por trás das grossas paredes de pedra, um labirinto que apenas os fantasmas deste castelo conheciam de cor.
Enquanto eu corria, ofegante, o som da batalha ecoava através das paredes. A guerra civil havia começado. Eu podia ouvir o choque dos escudos. A dinastia estava se partindo ao meio.
Alcancei o arsenal inferior, uma câmara empoeirada perto das caldeiras. Os guardas já haviam saqueado as espadas e as lanças, mas o que eu procurava não era uma lâmina. Eu precisava de algo que igualasse as forças. Algo que calasse um rei.
No fundo de um baú de madeira apodrecida, envolto em panos oleosos, eu o encontrei. Um canhão de mão. Uma handgonne.
Era uma arma terrível e primitiva, trazida de terras distantes em tempos de antigas batalhas mercenárias. Um tubo de ferro fundido, grosso e brutal, incrustado em uma pesada haste de madeira. As minhas mãos tremeram ao agarrá-la. O ferro estava gelado. Encontrei também a pequena bolsa de couro contendo a pólvora negra e as pedras de chumbo. Carreguei a arma com a pressa de uma mulher desesperada, socando a pólvora no cano escuro. O cheiro de enxofre e salitre empesteou as minhas narinas. Em minha outra mão, peguei um longo cordão de pavio de queima lenta e o acendi em uma das tochas da parede, escondendo a brasa incandescente por baixo do meu avental grosso.
Com a pesada arma de fogo apoiada contra o quadril, voltei para os túneis. Eu sabia exatamente para onde eles estavam indo.
O Grande Salão.
O salão principal do castelo, o coração de Hereford, tornou-se o palco do apocalipse. Quando empurrei a pequena porta de carvalho oculta atrás da imensa tapeçaria real e escorreguei para o salão, o ar lá dentro estava asfixiante, espesso de fumaça de tochas e cheiro de sangue fresco.
Edward havia recuado para lá com a sua guarda de elite, empurrando a comitiva de Alvernia como reféns de luxo. Na galeria superior, isolados e cercados por lanceiros de Hereford, o Rei Afonso mantinha a sua espada desembainhada, protegendo a Rainha Beatrice e a Princesa Isabel. E lá estava ela, a minha Olívia, postada firmemente à frente da princesa, a pequena adaga em mãos, ofegante, os olhos azuis arregalados diante do terror.
As portas principais do salão não foram abertas; elas foram arrombadas com um estrondo que fez o chão tremer.
Edwin irrompeu para dentro.
O príncipe loiro não parecia mais a realeza polida que se sentava à mesa de jantar. A sua túnica estava rasgada e encharcada com o sangue dos homens que teve que abater no caminho. A marca de seu rosto latejava, mas a sua feição era a fúria encarnada. Atrás dele, dezenas de soldados leais a invadiram o salão, erguendo escudos amassados e espadas lascadas, prontos para morrerem por ele.
Edward estava de pé, imponente, no degrau mais alto do trono que pertencera ao pai. Ele sacou a sua própria lâmina — uma espada longa e perfeitamente equilibrada — e olhou para o irmão com um desprezo doentio.
— Você lutou até aqui apenas para manchar os meus tapetes com o seu sangue sujo, Edwin? — a voz de Edward soou monótona e fria. — Renda-se. Olhe ao seu redor. Os portões estão trancados. Você não tem para onde ir.
Edwin cuspiu no chão de pedra, o peito arfando violentamente.
— A guerra não acabou na tumba do nosso pai, usurpador! — berrou o caçula, a voz rouca. — Eu não vim para fugir. Eu vim para arrancar essa falsa coroa da sua cabeça antes mesmo que você a coloque!
— Você é um tolo emocional. Sempre foi! — rosnou Edward, finalmente perdendo a paciência, descendo os degraus do trono com passos pesados. — Eu limpei a fraqueza deste reino! O nosso pai era um velho inútil que se afogava em luto! Eu sou a cura de Hereford!
Com um grito de guerra gutural que rasgou a garganta, Edwin avançou.
Os exércitos gritaram em uníssono, mas antes que a batalha generalizada estourasse, os dois irmãos colidiram no centro do salão.
O estrondo do aço soou como trovões. As faíscas voaram quando as lâminas se chocaram. Edwin lutava com uma paixão feroz, impulsionado por vinte e quatro anos de rejeição, pelo ódio do assassinato de seu pai e pela necessidade de salvar o reino. Ele girava a espada com golpes pesados, obrigando o irmão mais velho a recuar.
Mas Edward... Edward lutava com o cérebro de um psicopata gélido.
O primogênito defendeu uma estocada violenta, desviando o corpo com uma fluidez assustadora. Ele deixou que a raiva de Edwin o cegasse. Num movimento rápido, Edward girou a lâmina, cortando o ar, e cravou o joelho no estômago de Edwin. O ar fugiu dos pulmões do caçula. Antes que Edwin pudesse se recuperar, Edward desferiu um golpe com o pomo de metal da espada diretamente contra o maxilar machucado do irmão.
O estalo seco do osso ecoou pelo salão.
Edwin tombou violentamente de costas no chão. A sua espada escorregou pelas pedras polidas, indo parar a metros de distância.
O silêncio caiu como uma guilhotina. O exército de Edwin paralisou, vendo o seu líder cair.
Edward pisou com a bota de ferro pesado diretamente sobre o peito do caçula, esmagando-o contra o chão. A ponta afiada da espada de Edward foi pressionada impiedosamente contra a garganta de Edwin. Um filete fino de sangue vermelho começou a escorrer pelo pescoço do príncipe loiro.
— Acabou. — Os olhos de Edward eram abismos sem fundo. — Você sempre foi a maldição desta família. Você matou a minha mãe no dia em que abriu os olhos. Hoje, eu fecho os seus olhos para sempre e conserto o erro do universo.
Na galeria superior, Isabel soltou um grito de pavor e escondeu o rosto no peito do pai. Olívia deu um passo à frente, segurando a adaga com as mãos trêmulas, impotente contra o poder do exército lá embaixo.
Os lordes prendiam a respiração. O tirano havia vencido. O rei estava prestes a executar o próprio sangue.
Foi então que eu saí das sombras.
— Afaste a lâmina dele, Edward!
A minha voz não era o murmúrio submisso e oco da empregada que eles conheciam. Foi o rugido de um vulcão adormecido por mais de duas décadas. Um grito que fez o salão inteiro estremecer.
Todos os rostos se viraram na minha direção. Lordes, soldados, monarcas estrangeiros. E Olívia.
Caminhei para a luz das tochas. O meu avental simples estava manchado de fuligem, o meu cabelo desfiado caía pelo rosto, mas os meus pés eram firmes. Eu levantei o pesado tubo de ferro do canhão de mão, apontando a boca negra e letal diretamente para o peito de Edward. Puxei a brasa viva do pavio, que brilhou alaranjada no ar sombrio do castelo.
O choque desfigurou o rosto de Edward. A visão de uma mera faxineira segurando uma arma de artilharia, destemida, quebrou a sua realidade por um segundo.
— Amélia?! — sussurrou o monarca, atônito, antes que a arrogância tomasse conta novamente. Ele rosnou, enfurecido pela interrupção. — O que pensa que está fazendo, sua serva enlouquecida? Guardas! Peguem-na! Matem essa velha imunda!
Mais de dez soldados da guarda pessoal de Edward viraram as lanças e começaram a correr na minha direção, prontos para me empalar.
Eu não recuei um milímetro. A minha mão segurava a brasa.
Mas, debaixo da bota do irmão, engasgando com o próprio sangue, Edwin reagiu.
— Não! — berrou Edwin, agarrando a perna de Edward com uma mão e acenando desesperadamente para as suas tropas com a outra. — Escudeiros! Protejam a mulher! Façam uma parede! Deixem-na falar!
O exército rebelde de Edwin não hesitou. Com um grito de guerra ensurdecedor, os soldados leais ao caçula se lançaram para a frente. O som de escudos batendo contra escudos ribombou. Eles formaram uma muralha de aço e carne ao meu redor, empurrando os lanceiros de Edward para trás com fúria.
O salão virou um barril de pólvora à beira da explosão. Se alguém desse um passo em falso, centenas morreriam em minutos. E no centro do furacão, protegida pelas tropas do homem que eu deveria odiar por ser um príncipe, eu me mantive com a arma apontada para o rei tirano.
Edward pressionou a espada com mais força na garganta de Edwin.
— Mandem-nos recuar, ou eu arranco a cabeça dele agora mesmo, e depois mando queimar você viva! — sibilou Edward para mim, as narinas dilatadas de ódio.
— Você não vai arrancar a cabeça de ninguém, seu bastardo de alma podre — a minha voz chicoteou o silêncio que se formara entre os exércitos. Dei um passo à frente, ladeada pelos escudos dos soldados de Edwin. O cheiro de enxofre ardia em meus olhos. — Eu passei a minha vida inteira me misturando à mobília deste maldito castelo. Eu esfreguei o sangue das suas caças do chão. E eu ouvi tudo. As paredes de Hereford têm ouvidos, Edward. E hoje, elas têm uma boca!
Passei o meu olhar pela galeria superior, fixando-o na comitiva de Alvernia.
— O Príncipe Edwin disse a verdade na cripta! — gritei, para que todo o salão, até o último lorde encolhido no fundo, pudesse ouvir. — O Rei Phillip não morreu de coração fraco. Ele foi envenenado! E fui eu quem o matou!
Gritos de horror eclodiram. Murmúrios frenéticos varreram os conselheiros. Isabel e Beatrice cobriram a boca.
— Fui eu que adicionei as gotas do extrato letal na xícara dele! — continuei, a minha voz sobrepondo-se ao caos. Olhei para o rosto pálido de Edward, saboreando o pânico que finalmente começava a rachar a sua fachada gélida. — Mas eu fui apenas a arma! O autor intelectual do regicídio é a escória que tem uma bota no peito do irmão. Eu estava escondida na biblioteca privada dele. Eu ouvi quando você e o seu capacho, Thomas, comemoraram o sucesso da dedaleira! Você matou o seu pai para usurpar a coroa!
— Mentiras! — rugiu Edward, cuspindo as palavras, o rosto vermelho de ódio. — Mentiras de uma criada senil e traidora que se vendeu a este irmão fracassado para me derrubar! Por que você envenenaria o seu rei, se não fosse uma assassina sem alma?!
A pergunta dele foi o gatilho final. A barragem que segurou o meu sofrimento por vinte e seis anos finalmente se rompeu.
— Porque o rei já havia assassinado a minha alma muito antes de você nascer! — gritei de volta, as lágrimas grossas finalmente transbordando e riscando o meu rosto enrugado. A dor rasgou a minha garganta, pura e letal.
Abaixei levemente a arma de fogo, o peso do ferro quase me puxando para baixo. O salão estava submerso em um silêncio aterrador. Até os guardas abaixaram um pouco os escudos para ouvir.
Ergui o meu rosto molhado pelas lágrimas e olhei para a galeria. Diretamente para Olívia.
A minha garotinha. A plebeia dedicada. A jovem que acabara de sacar uma adaga para proteger a realeza, sem saber o que corria em suas próprias veias.
— Há muitos anos, antes de carregar o luto como uma desculpa para a sua crueldade, o Rei Phillip vestia mantos escuros e rondava a cidade baixa — comecei, o meu tom caindo para um relato sombrio e dilacerante. — Ele mentiu para mim. Ele jurou amor a uma garota ingênua das ruas. E quando a semente daquele falso amor cresceu no meu ventre, quando eu fiquei grávida, ele me encurralou nos corredores deste mesmo castelo.
Edward franziu a testa, perplexo. Edwin, ainda no chão, arregalou os olhos.
— Ele me ameaçou de morte — continuei, o choro misturado à fúria. Apontei o dedo vacilante para o centro do salão. — O vosso honrado rei me obrigou a viajar sob uma tempestade de neve até uma cabana miserável. Ele me obrigou a parir em segredo e abandonar o meu próprio bebê com uma parteira estranha na cidade de Gloucester, apenas para que a reputação de sua coroa com a rainha Catharine não fosse arranhada.
Um tinido metálico ecoou no salão.
Na galeria superior, a adaga escorregou das mãos de Olívia. Ela caiu no chão de mármore.
O rosto da minha filha perdeu cada gota de cor. Ela se agarrou ao parapeito da galeria como se o mundo tivesse perdido a gravidade. A sua respiração falhava. O quebra-cabeça de sua dor, da parteira Hilda, do abandono, dos Bennett de Gloucester, encaixava-se violentamente diante de toda a corte.
— Não... — o murmúrio de Olívia soou como um lamento frágil e quebrado. — Não... Amélia... o que você está dizendo?
Levantei a mão com o pavio incandescente na direção dela. O meu coração sangrava, mas a verdade precisava incendiar Hereford.
— Olhem para o rosto dela! — berrei com todas as forças que me restavam, a voz trovejando contra as pedras ancestrais. — Olhem para os olhos azuis no rosto daquela garota e digam-me de quem é o sangue que ela carrega! Vocês a chamam de dama de companhia. Os nobres a desprezam por ser uma órfã do povo! Mas o nome dela não é uma caridade!
As lágrimas de Olívia começaram a cair, o corpo dela tremendo enquanto a Princesa Isabel a segurava pelos ombros, horrorizada.
— O nome dela é Olívia de Hereford! — declarei, as palavras batendo como martelos na mente de todos os presentes. — Ela é a primogênita do Rei Phillip! Ela é a verdadeira herdeira de sangue deste reino! E eu... eu sou a mãe que teve que ser reduzida a um fantasma invisível para garantir que ela não fosse degolada por estes vermes!
O impacto foi indescritível. Uma onda de choque atômico varreu o Grande Salão. Os conselheiros e lordes ofegaram em pânico. O Rei Afonso levou as mãos à cabeça, percebendo que a coroa de Hereford era uma mentira monumental construída sobre os ossos de uma família partida. Olívia desabou de joelhos na galeria superior, escondendo o rosto nas mãos, soluçando em uma crise de choro excruciante, sentindo a dor do abandono se transformar no peso de um império.
Edwin, debaixo do pé do irmão, olhou para a galeria. Ele encarou a garota que, horas antes, limpou as suas feridas com compaixão. A sua irmã mais velha. A verdadeira dona da cadeira pela qual eles estavam se matando.
Mas Edward...
O tirano não se ajoelhou. Ele não recuou. O cérebro distorcido de Edward encontrou apenas ridículo naquela dor.
Ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada histérica, sombria, que congelou o sangue de todos. A risada de um homem louco que se recusava a largar o seu poder.
— Um bastardo de uma empregada no meu trono? — zombou Edward, os olhos faiscando com um deboche letal. Ele olhou para o conselho de lordes. — Que teatro patético! O conselho não coroa bastardos! O conselho não se curva a plebeias de Gloucester! As palavras de uma serva ressentida não valem nada diante do aço!
Edward endureceu o rosto, virando as costas para a minha arma, demonstrando a arrogância suprema de quem acha que o terror e o direito divino o tornam intocável.
Ele apertou a lâmina na garganta de Edwin novamente, os nós dos dedos brancos.
— Guardas, exterminem todos eles! Eu sou o Rei de Hereford! — berrou Edward. — E eu encerro esta piada degolando a fraqueza de uma vez por todas!
O meu sangue ferveu. Ele ia matá-lo. Ele ia matar Edwin na minha frente e depois ordenaria o massacre de todos, inclusive de Olívia.
Eu não hesitei.
Dei um passo à frente e aproximei a brasa brilhante do orifício de ignição do canhão de mão. O cheiro de morte encheu o ar. A minha vingança seria o último ato da minha vida servil.
Mas antes que a faísca tocasse o salitre, um vulto irrompeu do chão.
Movido por uma explosão de adrenalina e sobrevivência crua, Edwin rolou o próprio corpo com uma brutalidade feroz. A espada de Edward arranhou o pescoço dele, abrindo um corte superficial, mas o caçula escapou da lâmina letal. Em um pulo desesperado, cego pela traição monumental que acabara de ouvir, Edwin avançou como um lobo ferido em minha direção.
— Não, Amélia! — o grito de Edwin foi o rugido de um homem que estava retomando as rédeas da própria história.
Ele jogou o seu corpo suado contra mim. Com mãos trêmulas, mas de uma força implacável, o príncipe agarrou o tubo de ferro pesado da handgonne e o arrancou do meu aperto.
Cambaleei para trás, assustada, perdendo a brasa incandescente, que caiu nas pedras aos meus pés. O que ele estava fazendo?
Mas Edwin não queria desarmar a vingança. Ele a queria para si.
O caçula girou nos calcanhares com uma agilidade assombrosa para alguém que estava apanhando há minutos. Ele firmou as pernas no chão do salão, ergueu o canhão de mão brutal na altura do peito, equilibrando a pesada madeira e o ferro contra o seu ombro machucado.
Edwin ofegava. As lágrimas e o sangue escorriam pelo seu rosto e pingavam no ferro da arma. Ele olhou para a galeria superior, os seus olhos azuis brilhando em luto e respeito enquanto encaravam a garota que desabava lá em cima. A sua irmã.
Em seguida, o caçula fixou os olhos diretamente na figura imponente de Edward.
Ele apontou a boca escura e fuliginosa da arma bem para o centro do peito do usurpador.
Edward paralisou. A espada longa na sua mão vacilou, tombando lentamente para o lado. O sorriso de escárnio derreteu do rosto do primogênito, substituído por um medo gélido, cru e paralisante. Pela primeira vez na vida miserável de Edward, o controle absoluto lhe escapava pelos dedos. O destino não estava mais na ponta de suas maquinações intelectuais; estava no dedo trêmulo do irmão emotivo que ele tanto subjugou.
— Você não tem coragem, Edwin — sibilou Edward, a voz esganiçada, dando meio passo para trás, aterrorizado com o abismo negro do cano da arma. — Você é fraco. Um emotivo inútil. Você não derrama o próprio sangue.
Edwin puxou o pequeno pino do mecanismo improvisado, a pedra de sílex travada no suporte primitivo, a um fio de distância da pólvora. O silêncio na sala era como o vácuo que antecede um furacão.
— Você não sabe nada sobre mim, irmão — a voz de Edwin não era um grito. Era baixa, fria e absolutamente inabalável. Um juramento de morte justificada. — Você passou a vida inteira me envenenando com a culpa, dizendo que eu roubei a vida da nossa mãe. Mas a verdade, Edward, é que o único veneno que adoecia este castelo, a única podridão que apodrecia este reino... era você.
Edward abriu a boca, as mãos trêmulas finalmente entendendo o peso do seu fim.
— Guardas... — ofegou Edward, em um sussurro frágil.
Ninguém se moveu. Os soldados de ambos os lados permaneceram imóveis. O destino dos dois irmãos havia se reduzido apenas aos dois.
— Esse é o fim do seu reinado de terror — declarou Edwin, apertando a mandíbula, a sua alma se libertando das correntes de vinte e quatro anos. — Pela nossa mãe. Por Hereford. Por esta família que você arruinou.
Edwin apertou o mecanismo mecânico de disparo. A pedra de sílex chocou-se com força contra a pederneira.
A faísca saltou.
A pólvora acendeu no orifício.
BAM!
O estrondo foi apocalíptico.
Um clarão colossal, um fogo alaranjado e vermelho explodiu como o sopro de um dragão da boca de ferro bruto do canhão, iluminando o Grande Salão inteiro e cegando a todos por uma fração de segundo. O estampido ensurdecedor chicoteou os ouvidos, reverberando contra as paredes altas de Hereford com a força de um trovão enfurecido. O cheiro sulfuroso da pólvora queimada engoliu o ar instantaneamente.
O recuo brutal da arma arremessou Edwin para trás. O canhão voou das suas mãos e bateu no chão de pedra, rolando.
Do outro lado do salão, a uns parcos cinco metros de distância, a justiça foi entregue em chumbo grosso.
A esfera de ferro e chumbo atravessou a suntuosa túnica negra e destroçou a resistente cota de malha de Edward como se fosse feita de papel. O impacto abriu um buraco violento e sangrento diretamente no centro do peito do tirano.
O impacto o suspendeu no ar por milésimos de segundo. A espada majestosa de Edward escorregou dos seus dedos frouxos e colidiu ruidosamente contra os degraus do trono.
O olhar de Edward arregalou-se no vazio. O homem calculista, que se julgava mais inteligente que os deuses e que envenenou o próprio pai por poder, olhou para baixo, fitando o rombo escarlate em seu próprio peito. Os lábios dele tremeram, buscando um ar que os seus pulmões destroçados não podiam mais processar.
Com um baque oco e terrível, os joelhos do usurpador cederam.
Ele caiu de bruços nos degraus de mármore, o sangue escuro escorrendo pelas pedras, lavando o trono que ele matou para conquistar, mas que nunca chegaria a ocupar oficialmente.
Edward estava morto. Com um único e ensurdecedor tiro.
A fumaça espessa flutuava como uma mortalha no centro do salão. A poeira das pedras estilhaçadas e da pólvora ainda pairava no ar.
O silêncio que se instalou não era pacífico; era o choque denso de uma dinastia desmoronando e renascendo no mesmo minuto. Nenhum guarda avançou. Nenhum lorde sussurrou. As armas de todos os soldados, tanto os de Edwin quanto os do exército de Edward, caíram por terra em submissão involuntária diante do cadáver do monstro.
Edwin, atirado no chão pelo coice da arma, ergueu-se lentamente, ficando de joelhos em meio à fumaça. O príncipe loiro, respirando com dificuldade, os braços cansados, fixou o olhar no corpo sem vida do irmão mais velho.
Não havia um resquício de sorriso ou triunfo no rosto de Edwin. O seu peito subia e descia em uma agonia exaustiva. Ele apenas chorou. Não de culpa, não de dor pelas palavras de outrora, mas a exaustão profunda e devastadora de um homem que precisou matar o sangue do seu sangue para que os fantasmas do passado parassem de assombrar o futuro. Edwin abaixou a cabeça, derrotado pelas dores da guerra.
Eu perdi a força nos joelhos. O peso de tudo o que eu havia revelado caiu sobre os meus ombros e eu cedi, ajoelhando-me no chão frio de Hereford, com as mãos cobrindo o próprio rosto suado. O ar me faltava.
Acabou. O rei estava morto. O usurpador estava morto. Os segredos apodrecidos que alimentaram esta fortaleza por décadas haviam sido estilhaçados em público pelo som de uma arma de fogo.
Tirei as mãos do rosto, respirando o cheiro de fumaça e salitre. Em meio à poeira e ao silêncio sepulcral que dominou a nobreza e o exército, ergui o meu olhar marejado.
Eu olhei para cima.
Lá, no alto da galeria, através da neblina da pólvora, estava ela.
Olívia. A plebeia que serviu vinho. A bastarda descartada na neve. A garota de Gloucester que passara a vida acreditando ser um erro indesejado.
Ela havia parado de soluçar. Apoiada nas mãos trêmulas da Princesa Isabel, Olívia olhava para baixo, para a confusão mortal que os filhos do rei haviam gerado pelo trono, e depois, os olhos brilhantes e azuis da minha menina cruzaram diretamente com os meus.
Havia dor neles, sim, muita dor. Mas também, pela primeira vez na história daquelas muralhas, havia a fagulha inquebrável de uma verdadeira coroa. A justiça estava feita.
As pedras gélidas de Hereford estavam, finalmente, prontas para se curvarem perante a sua verdadeira Rainha.
CAPÍTULO 18
A LUZ APÓS A PÓLVORA
O cheiro de pólvora, sangue e cera derretida custou a abandonar as pedras do Grande Salão. Nos dias que se seguiram àquele estrondo apocalíptico, Hereford pareceu prender a respiração, como um animal ferido que finalmente percebe que o predador está morto e não sabe, ao certo, como voltar a caminhar.
O tempo, contudo, tem a sua própria maneira de lavar a morte.
Os funerais ocorreram sob uma neblina fina, mas sem a histeria daquela noite. O corpo do Rei Phillip já repousava em sua tumba fria, e o de Edward foi sepultado ao amanhecer do terceiro dia, em uma cerimônia rápida, sombria e destituída de qualquer glória. Não houve choro copioso pelo primogênito. Os lordes, ainda aterrorizados pela revelação do envenenamento e pela brutalidade do falecido tirano, compareceram apenas por protocolo. A terra engoliu Edward e a sua ambição desmedida, encerrando para sempre a sua tirania silenciosa.
Quanto a Edwin, as leis dos homens comuns não se aplicavam à realeza da mesma forma. Não houve julgamento. Como a monarquia não submete os seus príncipes à forca quando o ato é justificado como a defesa da própria coroa e a punição de um regicida, o conselho de lordes aceitou o ato do caçula como uma libertação. O sangue real havia derramado sangue real para arrancar o veneno das veias de Hereford. Nas ruas, o povo não o chamava de assassino; os plebeus o chamavam de o herói que os salvou do inverno eterno de Edward.
A história, no entanto, não parou nos limites do castelo. O vento carregou a verdade para fora das muralhas. Em cada viela, em cada mercado barulhento e nos vales distantes, todos sabiam. A cidade inteira sussurrava a mesma lenda estarrecedora: o Rei Phillip havia sido envenenado pelo filho, o primogênito fora abatido por uma arma de fogo estrondosa, e a verdadeira herdeira do trono não era um lorde de manto, mas uma garota criada em Gloucester, filha da empregada invisível que por décadas varreu o chão que a nobreza pisava.
Ninguém ousou me punir. Eu, Amélia, que confessei ter servido a taça letal, fui poupada. O ato foi visto como o cumprimento inevitável do destino, uma justiça poética onde a vítima do rei tornou-se a carrasca de sua tirania. Fui colocada sob a proteção direta de Edwin e do exército, intocável.
Na manhã do quinto dia, o sol finalmente decidiu rasgar as nuvens cinzentas de Hereford. O pátio principal estava movimentado, mas não com armas ou preparativos de guerra. Eram as carruagens de Alvernia.
A Princesa Isabel, vestida não mais com os tons escuros de luto impostos por Edward, mas com um vestido azul-celeste que lembrava o céu limpo do seu reino natal, estava de pé diante da comitiva. O Rei Afonso e a Rainha Beatrice aguardavam perto das carruagens, os escudos de seus soldados agora abaixados, substituídos pelo alívio de estarem voltando para casa vivos.
Eu desci as escadarias de pedra, acompanhada de Olívia. A minha filha ainda parecia estar caminhando em um sonho, vestindo um robe de veludo escuro e prateado que Edwin ordenara que as costureiras fizessem para ela. O tecido humilde de dama de companhia havia ficado para trás.
Quando Isabel nos viu, o seu rosto iluminou-se com um sorriso que Hereford raramente presenciara. A princesa caminhou até nós, parando no centro do pátio, diante de dezenas de lordes e soldados que a observavam em silêncio respeitoso.
— Eu vim a este castelo como uma peça de xadrez — a voz de Isabel soou límpida, ecoando pelo pátio para que todos ouvissem as suas palavras oficiais. — Fui entregue a uma união forjada no cálculo e na ambição. Mas a morte desfez os laços que os homens tentaram amarrar. Eu não sou mais a Rainha Consorte de Hereford. E, diante dos deuses e deste conselho, eu renuncio a qualquer reivindicação que a aliança com Edward pudesse me dar. Este trono não me pertence.
Os lordes assentiram. A quebra do pacto era oficial, mas não havia guerra naquelas palavras; havia apenas paz.
Isabel virou-se para Olívia. Os olhos verdes da princesa transbordavam um afeto profundo e genuíno.
— Você entrou nos meus aposentos como a minha dama de companhia, Olívia. Mas foi você quem me escutou quando eu estava apavorada, foi você quem segurou a minha mão quando este castelo tentou me engolir — Isabel segurou as mãos de Olívia, sorrindo entre lágrimas contidas. — Os deuses sabiam o que estavam fazendo. Eu perco o trono de Hereford hoje, mas o deixo nas mãos de alguém que entende o que é o peso do mundo. Você será uma rainha grandiosa, minha amiga. Muito maior do que eu jamais seria.
Olívia apertou as mãos da princesa, a voz embargada pela emoção de uma despedida que ela não queria que acontecesse, mas que sabia ser necessária.
— Hereford será eternamente grata à sua bondade, Isabel — sussurrou Olívia. — E as nossas portas sempre estarão abertas para você. Volte para o seu sol em Alvernia. Você merece ser feliz.
Isabel assentiu, enxugando uma lágrima fugaz. Em seguida, a princesa virou o seu olhar para mim.
Eu instintivamente abaixei a cabeça, o reflexo de vinte e seis anos de subserviência me dominando por um segundo, mas Isabel levou a mão ao meu queixo e ergueu o meu rosto com uma gentileza imensurável.
— Não se curve nunca mais, Amélia — disse a princesa, a voz firme e carregada de uma admiração avassaladora. — Você foi a verdadeira muralha deste castelo. Escondeu-se nas sombras para proteger a luz. Eu conheci reis, rainhas, guerreiros e generais com armaduras douradas... mas você é a pessoa mais corajosa e justa que os meus olhos já viram.
— Eu fui apenas uma mãe, Vossa Alteza — murmurei, sentindo um calor no peito que há muito não experimentava.
— E isso foi o suficiente para salvar a todos nós — Isabel sorriu, beijando o meu rosto com carinho. — Boa sorte, Amélia. Eu virei visitá-las em breve, quando as flores voltarem a crescer neste jardim.
Com uma última reverência mútua, Isabel caminhou até os pais. As portas de ferro de Hereford se abriram, e as carruagens de Alvernia cruzaram a ponte, levando consigo a doçura e deixando para trás um reino pronto para recomeçar.
O pátio começou a se esvaziar. Pedi licença a Olívia por um momento, sentindo a necessidade de resolver a última ponta solta daquele pesadelo.
Caminhei até a ala oeste, em direção aos antigos aposentos do príncipe caçula. A porta estava aberta. O quarto cheirava a ervas medicinais e bálsamo de cura.
Edwin estava sentado em uma grande poltrona perto da janela, o peito nu enfaixado onde o peso da arma e a luta com Edward haviam deixado hematomas terríveis. O seu maxilar estava escurecido, mas o seu olhar... o seu olhar estava vivo. O vazio denso e a culpa que o assombraram por toda a vida haviam sumido, substituídos por uma exaustão pacífica.
Entrei em silêncio, carregando uma pequena bacia de água limpa e panos limpos por puro instinto.
— Alteza... — comecei, preparando-me para umedecer o pano no bálsamo.
A mão grande e quente de Edwin segurou o meu pulso antes que eu pudesse afundar o tecido na água. O príncipe olhou para mim, balançando a cabeça lentamente.
— Pare, Amélia — a voz de Edwin era branda, quase um sussurro, mas possuía uma firmeza terna. Ele tirou o pano das minhas mãos e o colocou sobre a mesa. — A senhora não fará mais isso. A senhora não lavará mais o chão que nós pisamos, nem carregará as nossas dores em bandejas de prata. Acabou.
Eu engoli em seco, os olhos marejando perante a gentileza daquele menino que eu vira nascer no meio do sangue e da morte.
— O hábito é um vício difícil de quebrar, meu senhor — respondi, as lágrimas teimando em subir. — Eu cuidei da sua mãe, a rainha Catharine, naquele leito. Cuidar de você é... é o mínimo que eu poderia fazer por ela.
Edwin fechou os olhos por um segundo, absorvendo a menção ao nome da mãe.
— Você sabe, Amélia... eu passei a minha vida inteira acreditando que eu era o veneno. Edward fez questão de martelar isso na minha cabeça. O meu pai olhava para mim e via apenas um túmulo. Eu achava que o meu nascimento havia sido o fim da bondade em Hereford.
Ele abriu os olhos e apertou as minhas mãos entre as dele.
— Mas a senhora mostrou a todos nós quem era o verdadeiro veneno. A senhora salvou a minha vida naquele salão, arriscando tudo. A senhora e a minha mãe, Catharine, eram diferentes em título, mas iguais no coração. A partir de hoje, Amélia, a senhora não é uma empregada nesta casa. A senhora é a mãe da nossa Rainha. E para mim... a senhora é a família que me restou.
Eu não consegui segurar o soluço. Deixei que as lágrimas caíssem, permitindo-me ser amparada pelo toque do caçula. Ali, diante daquele jovem que o mundo julgava indigno e descontrolado, eu encontrei a alma de um verdadeiro rei sem coroa.
Foi então que a porta de madeira rangeu suavemente. Olívia entrou no quarto, hesitando por um momento ao ver a cena.
Edwin soltou as minhas mãos com um sorriso fraco e fez um esforço para se levantar. Ele estremeceu de dor, mas se manteve de pé, curvando ligeiramente a cabeça para a garota de cabelos pretos.
— Não precisa se levantar por mim, Edwin — disse Olívia apressadamente, dando um passo à frente com as mãos erguidas. — Você está ferido.
— Eu preciso, sim — respondeu Edwin, com os olhos azuis cravados nos dela. Havia tanta semelhança naqueles dois rostos, embora pertencessem a mães diferentes. O sangue de Phillip corria em ambos, mas a crueldade do pai havia sido apagada neles. — Eu passei a vida sendo o segundo herdeiro. O inútil. Aquele que ninguém queria olhar. E, de repente, eu descubro que tenho uma irmã mais velha.
Olívia sorriu, um sorriso trêmulo e genuíno, sentindo a aceitação incondicional nas palavras dele.
— Eu também sempre achei que não pertencia a lugar nenhum — confessou ela. — Éramos dois fantasmas na mesma casa, sem saber.
Edwin deu um passo à frente e estendeu a mão. Olívia não hesitou em pegá-la.
— Eu não quero o trono, Olívia. Eu nunca quis — revelou Edwin, a voz ressoando com uma verdade inabalável. — Eu queria apenas que este castelo tivesse paz. Edward afundaria tudo em trevas, e eu afundaria o reino nas minhas próprias emoções conturbadas. Hereford precisa de equilíbrio. Precisa de alguém com um passado forjado na realidade das ruas e não nas ilusões destes tapetes. Precisa de você, minha irmã.
A palavra "irmã" flutuou no ar, curando feridas profundas em ambos. Edwin a reconhecia não como uma bastarda a ser ocultada, mas como a primogênita legítima e salvadora.
— Eu terei o maior orgulho de ser o general do seu exército, minha Rainha — disse Edwin, beijando as costas da mão de Olívia com a reverência mais sincera que já havia prestado em toda a sua vida.
Olívia abraçou o irmão, um abraço cuidadoso para não machucar os hematomas dele, mas forte o suficiente para selar o fim da guerra fraternal de Hereford. Eu assisti a tudo do canto do quarto, o peito transbordando de uma paz que eu jamais pensei que conheceria.
Deixei os dois conversando sobre os preparativos políticos e me retirei. Eu tinha um último encontro marcado. O mais importante da minha vida.
No final daquela tarde, o sol dourado banhava os aposentos que um dia pertenceram à Rainha Catharine. O quarto havia sido limpo e arejado, as cortinas de veludo negro do luto foram abertas para deixar a luz entrar. O cheiro de doença e morte havia sumido.
Eu estava sentada em uma das poltronas estofadas. Não varrendo, não polindo prata. Apenas sentada, com as mãos repousando no colo, observando a poeira dançar nos raios de sol.
A porta se abriu devagar. Olívia entrou.
Ela fechou a porta atrás de si com cuidado, isolando-nos do resto do castelo. O silêncio reinou entre nós por longos minutos. A tensão era diferente agora. Não era o medo da descoberta, mas o peso monumental de uma verdade que finalmente havia sido dita em voz alta e que precisava ser digerida.
Olívia caminhou lentamente e puxou a cadeira que costumava ficar em frente à penteadeira. Ela a colocou bem de frente para mim e sentou-se, de forma que os nossos joelhos quase se tocavam.
Os seus olhos brilhantes e azuis vasculharam o meu rosto. O rosto envelhecido prematuramente, as rugas de preocupação, as marcas do trabalho braçal. Ela não estava olhando para a mobília do castelo; ela estava me enxergando por completo.
— Em Gloucester... quando eu descobri que era adotada... — começou Olívia, a voz trêmula e suave, rompendo o silêncio. — A parteira, Hilda, me contou sobre a noite em que eu nasci. Ela me disse que era a tempestade de neve mais terrível da década. Que a mulher que me deu à luz chorava de puro desespero. E que de manhã... a porta estava escancarada, e a mulher havia sumido, deixando apenas um saco de moedas e um nome.
Eu prendi a respiração, as memórias daquela madrugada cravando-se como facas no meu peito. Eu revivi o frio, o choro estridente, a decisão impossível de deixá-la no berço improvisado.
— Eu odiei você, Amélia — confessou Olívia, e cada palavra foi dita não com rancor, mas com a honestidade crua de uma ferida antiga. — Por anos a fio, eu olhava para as estrelas e odiava o fantasma que não me quis. Eu pensava: 'O que eu fiz de tão errado em meu primeiro suspiro para não merecer ficar com ela?' Oliver e Emily me deram tudo, mas o abandono deixou um buraco frio aqui dentro.
As minhas lágrimas começaram a cair, incontroláveis. Levantei as mãos, trêmulas, querendo tocá-la, mas hesitei, recolhendo-as sobre o colo.
— Foi a decisão mais dilacerante que uma alma pode suportar, minha menina — eu disse, a voz embargada pelos soluços que subiam pela minha garganta. — O rei descobriu o volume no meu avental. Ele me colocou contra a parede e me deu uma sentença. Se eu voltasse com você para estes portões, se ele soubesse que o bastardo indesejado sobreviveu ao seu alcance, nós duas seríamos enterradas no anonimato. Eu tive que quebrar o meu próprio coração para manter o seu batendo.
Olívia inclinou-se para a frente. O seu rosto, outrora marcado pela confusão, agora refletia a compreensão cristalina do sacrifício que me custou a vida inteira.
— Durante todo esse tempo que estive aqui no castelo... escovando os cabelos da princesa, arrumando as roupas... — Olívia murmurou, a voz quebrando. — Você estava lá. Nos cantos. Trazendo a água morna, limpando as minhas mãos depois daquela confusão na cripta. Você ouvia eu te chamar de "senhora" ou de "empregada"... e você nunca disse nada. Como você suportou? Como o seu peito não explodiu?
— Porque ver você respirar era a minha única religião — respondi, secando o rosto com as costas das mãos. — O meu sofrimento não importava, contanto que as sombras de Edward e Phillip não alcançassem o brilho dos seus olhos. Eu abri mão de te embalar, eu abri mão do meu direito de ouvir a sua voz pela primeira vez, para garantir que você chegasse viva até o dia de hoje.
Olívia fechou os olhos, e uma lágrima quente escorreu pela sua bochecha pálida. Quando ela os abriu novamente, a dor do abandono havia desaparecido por completo, varrida pela magnitude avassaladora daquele amor materno que resistiu ao tempo, à distância e à tirania de um rei.
— Você não fugiu de mim naquela madrugada em Gloucester — sussurrou Olívia, esticando as mãos e pegando as minhas. Os dedos finos e elegantes dela entrelaçaram-se nos meus dedos calejados e ásperos. — Você não me descartou, como a parteira achou. Você me plantou na terra mais fértil que encontrou, longe do veneno daqui, para que eu pudesse crescer forte.
Apertei as mãos dela, encostando a minha testa nas nossas mãos unidas, chorando abertamente.
— Eu sinto muito, Olívia. Sinto muito por não ter sido a mãe que preparou o seu café da manhã. Por não ter feito os seus curativos quando você caía. Sinto muito por ter forçado você a viver com uma mentira.
Olívia soltou as minhas mãos e, num movimento contínuo e repleto de emoção, deslizou da sua cadeira para o chão, ajoelhando-se diante de mim. Ela envolveu a minha cintura, enterrando o rosto no meu colo.
O choque me paralisou por um milésimo de segundo, mas logo os meus braços desceram. As minhas mãos, que passaram a vida segurando vassouras e, ontem, uma arma letal, agora afagavam os longos cabelos escuros da minha filha. Eu a abracei contra o meu peito, sentindo o calor do corpo dela, o som do choro dela misturando-se ao meu.
— Não sinta muito — a voz dela era abafada contra o meu vestido, mas ecoava perfeitamente na minha alma. — Você abdicou da própria existência por mim. Você virou a arma para um rei implacável por mim. Você me deu a vida duas vezes, Amélia. E a partir de hoje... as sombras terminaram para nós duas.
Ela levantou o rosto. O choro havia deixado os olhos azuis ainda mais límpidos. Olívia tocou o meu rosto com uma ternura infinita.
— Você nunca mais será invisível. Você nunca mais abaixará a cabeça nestes corredores — decretou ela, a promessa de uma rainha selada no amor de uma filha. — Eu vou aceitar esta coroa. Vou assumir o trono de Hereford e limpar todo o sangue que o meu pai e Edward deixaram escorrer por estas colinas. E não farei isso sozinha.
A minha filha inclinou a cabeça e beijou as minhas mãos calejadas.
— Obrigada por ter me salvado... mãe.
A palavra atravessou o ar denso de Hereford como a luz do amanhecer rasgando a mais longa e tenebrosa das noites. Mãe. O som que eu passei vinte e seis anos imaginando ouvir no escuro do meu quartinho humilde, agora era real.
Eu fechei os olhos e puxei Olívia para um abraço apertado, embalando-a como eu não pude fazer naquela nevasca em Gloucester. O ciclo do nosso luto estava definitivamente encerrado.
No alto da colina, a fina neblina que cobria Hereford começou, pela primeira vez em vinte e quatro anos, a se dissipar sob o calor dourado do sol poente. O castelo de pedra não fedia mais a cera, a sangue ou a medo. As muralhas que nos oprimiram agora seriam as nossas fortalezas. O destino não nos devorou; ele se curvou.
E a empregada invisível que varria a sujeira do império tornou-se, finalmente, a raiz sagrada da nova realeza
CAPÍTULO 19
O ALVORECER DE HEREFORD.
Há milagres que não nascem do divino, mas sim da exaustão do sofrimento.
Nos dias que se seguiram à queda de Edward e ao funeral do Rei Phillip, a própria natureza pareceu suspirar aliviada. A fina e gélida neblina que por vinte e quatro anos sufocou as colinas de Hereford — a mesma névoa amaldiçoada que encobriu o castelo na noite em que a Rainha Catharine morreu — finalmente começou a se dissipar.
Pela primeira vez em décadas, os pássaros voltaram a cantar nas roseiras do jardim de inverno. O sol, outrora um visitante tímido e acovardado, agora derramava uma luz dourada e quente sobre as muralhas de pedra, derretendo o gelo que havia se acumulado não apenas nos telhados, mas no coração de todos nós.
Eu já não vestia os trapos cinzentos de uma empregada. O avental sujo de fuligem e sangue havia sido queimado nas fogueiras do pátio. Por ordens de Edwin e Olívia, eu agora vestia um vestido de seda macia em tons de bordô. O tecido escorregava pela minha pele como um carinho, mas, em meu íntimo, a minha maior coroa não eram as roupas finas; era a liberdade de caminhar pelos corredores de cabeça erguida. Ninguém desviava o olhar. Ninguém ousava me tratar como um fantasma. A mulher invisível havia morrido para dar lugar à mãe da realeza.
A manhã do anúncio oficial amanheceu radiante. Hereford fervilhava de expectativa.
Edwin e Olívia desceram as escadarias do castelo lado a lado. Eles caminharam a pé, recusando as carruagens blindadas que o Rei Phillip costumava usar para se esconder do povo. A caminhada seguiu até o grande centro da cidade, o exato local onde o comércio fervia e onde a desigualdade do nosso reino mostrava a sua face mais cruel.
Eu não caminhei com eles na multidão. Preferi observar do topo. Posicionei-me na grande sacada de pedra que se projetava acima da praça central, ladeada por guardas que agora curvavam a cabeça em respeito à minha presença. Dali, eu podia ver tudo.
A cidade era o retrato doloroso da herança de Phillip. Nos vales afastados, margeando o rio lamacento, amontoavam-se os casebres de madeira apodrecida dos plebeus, homens e mulheres de rostos cansados que trabalhavam até os ossos quebrarem. Mais ao centro, perto de onde estávamos, erguiam-se as mansões ostentatórias e os mercados exclusivos da nobreza, pessoas envoltas em veludo que festejavam alheias à miséria vizinha. E, no topo de tudo, o castelo, antes um predador intocável, isolado das dores do mundo.
Os sinos da torre não tocaram o dobre fúnebre; eles repicaram com uma urgência festiva, badaladas alegres e rápidas que chamaram a atenção de cada alma viva. O povo se aglomerou na praça. Plebeus com roupas sujas de terra e nobres com os seus mantos bordados formaram um mar de rostos curiosos e apreensivos.
Quando Edwin subiu ao palanque de madeira no centro da praça, puxando Olívia suavemente pela mão para ficar ao seu lado, o silêncio que caiu sobre Hereford foi absoluto.
O príncipe caçula, cujos ferimentos da batalha ainda marcavam o seu rosto de forma heroica, ergueu as mãos. Ele não parecia mais o menino impulsivo e ressentido; ele irradiava a maturidade de um verdadeiro líder.
— Povo de Hereford! — a voz de Edwin ecoou poderosa, rebatendo nas fachadas das casas e subindo até a minha sacada. — Durante décadas, nós fomos governados pelo medo. Fomos divididos por muralhas de pedra e por rios de lama. O meu pai, o Rei Phillip, reinou de olhos fechados para a dor de vocês. E o meu irmão, Edward, tentou afundar este reino em um abismo de tirania. Mas esse tempo acabou! As sombras foram expurgadas deste castelo!
A multidão ouvia, hipnotizada. Os plebeus apertavam as mãos uns dos outros, enquanto os nobres se entreolhavam, incertos sobre o futuro de seus privilégios.
— Muitos de vocês esperavam que eu, como o único príncipe sobrevivente desta linhagem, tomasse o trono hoje — continuou Edwin, o seu olhar varrendo a multidão com uma honestidade cortante. Ele então virou-se para a garota de cabelos pretos ao seu lado. — Mas eu não sou o herdeiro legítimo. E, mesmo que fosse, eu renuncio, diante de todos os deuses e de todo este povo, a qualquer direito a esta coroa!
Ofegos de choque percorreram a praça.
Edwin segurou a mão de Olívia e a ergueu para o alto.
— Eu lhes apresento o sangue do Rei Phillip. A primogênita oculta. A mulher que sobreviveu à rejeição, ao frio e à crueldade, para retornar e nos salvar de nós mesmos. Saúdem a sua nova Rainha! Olívia de Hereford!
Um burburinho ensurdecedor tomou conta do povo. "Uma filha escondida?", "Uma plebeia?". Os plebeus começaram a se empurrar para ver mais de perto.
Olívia deu um passo à frente. O vento suave balançou os seus cabelos escuros. Ela não usava joias pesadas nem mantos de ouro. Usava um vestido simples, porém elegante, e o seu rosto carregava uma empatia que os lordes jamais compreenderiam.
Quando ela abriu a boca para falar, a cidade inteira prendeu a respiração.
— Eu não nasci em um berço de ouro — a voz de Olívia soou doce, mas carregava a firmeza de uma rocha. — Eu não fui criada atrás da segurança daquelas muralhas intransponíveis lá no alto. Eu fui criada no mundo real. Eu cresci sentindo o cheiro do pão recém-assado nas ruas estreitas, eu conheço a dureza do inverno quando a lenha acaba, e eu sei exatamente o que é ser invisível aos olhos daqueles que detêm o poder!
Olívia apontou para os vales afastados, a voz ganhando uma força arrebatadora.
— Eu vejo vocês, nos vales de lama. Eu vejo a nobreza no centro, festejando enquanto os celeiros das vilas estão vazios. Essa divisão acabou! A realeza não reinará mais isolada no alto de uma colina, cega às dores de seu próprio povo. Hereford não será mais um símbolo de melancolia e temor. Nós vamos abrir os portões. Nós vamos reconstruir as ruas, os campos e a nossa dignidade. As muralhas caíram!
O silêncio demorou um segundo para se quebrar, mas quando o fez, foi como uma explosão.
Um plebeu ergueu o punho no ar e gritou. Logo, dez se juntaram a ele. Em instantes, a praça inteira — dos camponeses mais humildes aos guardas reais — irrompeu em aplausos e vivas ensurdecedores. Gritos de "Vida longa à Rainha Olívia!" rasgaram os céus. A esperança, por tanto tempo trancada e asfixiada, finalmente transbordou.
Da sacada, eu assisti à minha menina sorrir para o povo. As lágrimas lavaram o meu rosto. A semente que eu plantei na neve, em meio ao mais puro desespero, havia se transformado na maior árvore daquele reino.
A cerimônia de coroação ocorreu no Grande Salão dias depois.
A atmosfera, antes tão gélida e assustadora durante o casamento arranjado, agora transbordava vida. O salão estava decorado com fitas brancas e douradas. A luz do sol entrava pelas vidraças limpas, iluminando o trono.
Mas a maior quebra de protocolo não estava na decoração. Estava nas mãos que seguravam a coroa.
O arcebispo, recuado em seu canto, não protestou quando Olívia exigiu que a velha tradição fosse alterada.
Eu caminhei pelo longo tapete vermelho. Em minhas mãos, repousando sobre uma almofada de veludo negro, estava a pesada coroa de ouro e safiras de Hereford. O metal brilhava sob as luzes. Cada passo que eu dava apagava um dia de humilhação que vivi naquele lugar. As cabeças dos lordes e damas da corte se curvavam enquanto eu passava. A empregada invisível agora caminhava como a rainha-mãe.
Parei diante dos degraus do trono. Olívia estava sentada, deslumbrante, e Edwin permanecia de pé, orgulhoso, à direita do trono real, assumindo a sua posição como o primeiro e mais leal General de Hereford.
Subi os degraus lentamente. Olívia ergueu os olhos azuis para mim, e o universo inteiro pareceu desaparecer.
— A coroa é pesada, minha menina — murmurei, apenas para que ela e Edwin ouvissem, enquanto eu erguia o aro de ouro. — Mas nunca mais você a carregará sozinha.
— Coloque-a, mãe — ela sussurrou, os olhos brilhando. — Consagre o que você lutou tanto para proteger.
Com as mãos trêmulas de emoção, desci a coroa sobre os cabelos escuros da minha filha. O ouro assentou com perfeição.
— Rainha Olívia de Hereford! — declarei, a minha voz ecoando pelo salão com a força de um trovão.
O castelo estremeceu com os aplausos e as trombetas. No meio do êxtase, Olívia levantou-se, ignorando os conselheiros e a etiqueta. Ela abriu os braços e me abraçou com força. Edwin não hesitou; o caçula, com um sorriso largo, envolveu nós duas em um abraço caloroso e protetor. Os três. Juntos. Uma família forjada na dor, no perdão e no sangue, finalmente unida diante do mundo.
O banquete que se seguiu foi o mais alegre que a história de Hereford já registrou. Eu sentei à mesa principal. Não havia vinho derramado para eu limpar, não havia olhares cruéis para eu temer. Apenas música, fartura e o riso solto de Edwin brindando com os cavaleiros.
A calmaria instalou-se no nosso império. Eu passei a viver dias que pareciam verdadeiros sonhos roubados dos deuses. Os meus aposentos já não eram um quartinho úmido, mas sim uma suíte espaçosa, cheia de janelas para a luz do sol, perto do quarto da rainha.
No entanto, o coração da minha filha, tão vasto e justo, ainda guardava um pedaço do seu passado que clamava por encerramento e gratidão.
Poucas semanas depois da coroação, as grandes portas do castelo se abriram para uma visita muito especial.
Eu estava no jardim com Olívia, observando as fontes recém-restauradas, quando um lacaio anunciou a chegada. Olívia soltou um arquejo contido e correu, levantando as saias do vestido pesado, perdendo completamente a compostura real.
Quando cheguei à entrada do pátio, observei a cena.
Um homem robusto, de cabelos grisalhos e mãos calejadas de trabalho honesto, estava parado ao lado de uma mulher de feições doces, cujos olhos transbordavam de lágrimas. Eram Oliver e Emily Bennett. Os pais adotivos.
Olívia jogou-se nos braços deles. O choro da mulher ecoou pelo pátio.
— Minha menina! Oh, Olívia, minha querida! — chorava Emily, beijando o rosto da rainha como se ela ainda fosse a criança que corria pelos vinhedos de Gloucester.
— Eu senti tanta falta de vocês. Tanta! — Olívia os abraçava de volta, dividindo-se entre os dois.
Oliver, o patriarca, recuou um passo e fez menção de se curvar, aterrorizado com a imponência dos guardas e da coroa.
— Majestade... nós lemos os pergaminhos da cidade... não sabíamos como nos portar...
Olívia segurou o rosto de Oliver, balançando a cabeça.
— Nunca se curvem para mim. Nunca. Vocês são os meus pais.
Eu permaneci a alguns passos de distância, sentindo o meu peito inchar de um amor absoluto. Eu não sentia ciúmes; eu sentia uma reverência sagrada por aquelas duas pessoas. Caminhei lentamente até eles.
Quando Emily e Oliver me viram, a semelhança entre mim e os traços da rainha revelou imediatamente quem eu era. O silêncio tomou conta deles, um misto de respeito, curiosidade e emoção.
Parei diante do casal. Olhei nos olhos de Emily, a mulher que enxugou as lágrimas da minha filha, que cantou as cantigas de ninar que eu não pude cantar. Sem dizer uma palavra, as minhas pernas cederam.
Eu me ajoelhei diante dos camponeses de Gloucester.
— Senhora! Por favor, não faça isso! — exclamou Emily, chocada, apressando-se em tentar me levantar, junto com Oliver.
— Eu ajoelho — falei, a voz rompendo num pranto grato e profundo, olhando de baixo para as duas almas mais puras do reino. — Eu ajoelho e, se os deuses me permitissem, daria a minha própria vida em pagamento a vocês. Eu abandonei a minha filha numa noite escura, amaldiçoada pelas sombras deste castelo. E vocês... vocês deram a ela o amor que o destino me roubou. Vocês construíram a bondade que habita a nossa rainha. Eu não tenho palavras, riquezas ou poder no mundo suficientes para agradecer o que fizeram pela minha menina.
Emily chorou junto comigo. Ela me puxou pelos braços, levantando-me e, quebrando qualquer protocolo, me envolveu em um abraço forte, como se fôssemos velhas amigas compartilhando a mesma dor e o mesmo milagre.
— Nós é que agradecemos, Amélia — soluçou Emily, apertando as minhas mãos. — Ela foi a maior bênção que o céu já derramou sobre o nosso teto. O mérito é da coragem que você teve de salvá-la.
Olívia juntou-se a nós, abraçando-nos. Os guardas em volta, acostumados a um castelo frio e impiedoso, apenas desviavam os rostos, muitos deles disfarçando os próprios olhos marejados.
Quando nos acalmamos e entramos nos salões arejados para tomar um chá quente, Olívia segurou a mão de Oliver e sorriu.
— Eu não quero que voltem para Gloucester — anunciou a Rainha, a sua voz melodiosa preenchendo o salão. — O reino de Hereford precisa se reconstruir. Nós vamos fortalecer a cidade baixa e eu preciso de pessoas boas no meu conselho. Pai, mãe... eu quero que tragam a fábrica de vinhos dos Bennett para as terras da coroa. Terão todo o ouro, terras e proteção de que precisarem para crescerem os negócios aqui. Ao meu lado.
Os olhos de Oliver arregalaram-se. A emoção de um pai humilde vendo a filha que ele criou não apenas prosperar, mas mudar o mundo, o deixou sem palavras. Emily apenas chorou, assentindo, agradecendo repetidas vezes.
Naquela noite, as lareiras do castelo queimavam lenha com um cheiro de pinho fresco. Eu deixei Olívia conversando animadamente com os Bennett e com Edwin, que agora ria e contava histórias sobre as patrulhas do exército para o casal.
Caminhei até a grande varanda e apoiei as mãos no parapeito.
Olhei para o céu estrelado. A neblina havia se dissipado por completo. O vento que uivou presságios gélidos no ano de 1426 agora era apenas uma brisa mansa e libertadora.
As correntes haviam quebrado. A empregada silenciosa, a mulher cuja história se perdeu no escuro, hoje ouvia o riso da filha ecoar pelos corredores, não como um fantasma, mas como a dona de tudo.
Os deuses poderiam ter desenhado o tabuleiro da minha vida com traição, sangue e perda, mas foram as minhas próprias mãos que moveram as peças finais. Hereford finalmente encontrou a sua luz, e eu, Amélia, encontrei o meu lar.
CAPÍTULO 20
BONS DIAS
O tempo é o único e verdadeiro alquimista deste mundo. Ele possui a capacidade silenciosa de transformar o chumbo da nossa dor no ouro da nossa paz.
Um ano inteiro havia se passado desde que o estrondo ensurdecedor daquele canhão de mão estilhaçou não apenas o peito de um tirano, mas também as correntes invisíveis que aprisionavam este reino. Um ano desde que o sangue lavou o chão do Grande Salão e a verdade, crua e libertadora, coroou a verdadeira herdeira de Hereford.
Quando me debruço sobre a sacada dos meus novos aposentos — um quarto banhado pela luz do sol, que em nada lembra a cela escura e úmida onde passei a maior parte da minha vida —, eu mal consigo reconhecer a cidade que se estende aos meus pés.
Hereford não é mais o reflexo de um luto apodrecido. Onde antes a neblina densa e asfixiante rastejava pelas colinas, agora o céu exibe um azul límpido e vasto. A pobreza, que por décadas foi uma sentença de morte nos vales afastados, está sendo sistematicamente erradicada. As antigas casas de madeira frágil e apodrecida pela lama deram lugar a construções firmes de pedra e tijolo. As ruas, antes estreitas e perigosas, foram alargadas e pavimentadas.
O som da cidade mudou. O silêncio do medo foi substituído por uma sinfonia de vida: o bater dos martelos nas novas forjas, o tilintar das moedas nos mercados, e, acima de tudo, a risada das crianças que agora correm livremente pelas praças. Há trabalho para todos. A fábrica de vinhos da família Bennett, trazida de Gloucester com o apoio total da coroa, tornou-se o coração pulsante do comércio de Hereford, empregando centenas de plebeus e enchendo as adegas do castelo com o sabor da prosperidade.
O castelo, antes um mausoléu de segredos e ecos fúnebres, abriu as suas janelas. As cortinas de veludo negro foram queimadas, substituídas por sedas claras que dançam com o vento. Eu não caminho mais colada às paredes, tentando ser invisível. Quando passo pelos corredores, os guardas sorriem e acenam. Os criados, muitos dos quais trabalharam ao meu lado nos dias de terror, agora me chamam de "Senhora Amélia", a Rainha-Mãe. E, embora o título oficial me soe estranho, o respeito genuíno que o acompanha aquece a minha alma todos os dias.
A tarde de hoje é particularmente bela. O outono chegou a Hereford não com o gélido presságio da morte que costumava trazer, mas pintando a paisagem com as cores mais quentes que a natureza pode criar.
Deixei os afazeres do conselho para trás e caminhei para fora dos muros do castelo, descendo a colina em direção aos campos reais. É um lugar vasto, um gramado de um verde tão intenso que parece uma tapeçaria tecida pelos próprios deuses, terminando suavemente nas margens de um riacho de águas cristalinas que canta enquanto corre sobre as pedras.
No centro desse campo, ergue-se uma árvore colossal e mágica, cujas folhas nesta época do ano assumem uma tonalidade de rosa vibrante. O vento suave de outono sopra, fazendo com que as pétalas rosas se soltem dos galhos e dancem no ar, caindo graciosamente sobre a grama como uma chuva de esperança.
Sob a sombra daquela árvore, sobre uma grande manta de lã felpuda, duas figuras já me aguardavam.
A Rainha Olívia, a minha filha, e o General Edwin, o príncipe que encontrou a sua redenção.
Olívia não usava a pesada coroa de ouro e safiras, nem os vestidos armados que a corte exigia para as reuniões. Ela usava um vestido simples de algodão claro, os cabelos negros soltos, caindo pelas costas com a mesma liberdade que agora regia a sua vida. Edwin estava ao seu lado, com a túnica levemente desabotoada no peito, atirando pequenas pedrinhas no riacho, rindo de algo que a irmã acabara de dizer.
O meu coração se apertou, não de dor, mas de uma alegria tão vasta que quase me faltou o ar.
Aproximei-me pisando nas pétalas rosas que cobriam o chão.
— Se o conselho de lordes visse a Rainha de Hereford sentada na grama, descalça, atirando pedras na água, temo que teriam um ataque do coração — anunciei, com um sorriso largo iluminando o meu rosto envelhecido.
Edwin virou o rosto para trás e abriu um sorriso radiante. Aquele sorriso leve, desprovido de culpa, era a prova final de que Hereford havia sido curada.
— Deixe que tenham os seus ataques, Amélia! — brincou Edwin, levantando-se rapidamente para me oferecer a mão e ajudar a me sentar na manta ao lado deles. — O conselho já fala demais durante a manhã. A tarde pertence apenas a nós.
Olívia inclinou-se e beijou o meu rosto com ternura, ajeitando a manta para me cobrir do vento fresco.
— Como foram as contas no tesouro hoje, mãe? — perguntou ela, os olhos azuis brilhando com a vivacidade que o trono nunca conseguiu apagar.
— Prósperas, Majestade — respondi, usando o título de brincadeira, o que a fez revirar os olhos com um sorriso. — O último carregamento de vinho dos seus pais, Oliver e Emily, dobrou os lucros na fronteira norte. Eles mandaram lembranças, aliás. Disseram que amanhã trarão um bolo de maçã recém-assado para o castelo.
— Emily não perde o hábito de tentar nos engordar — riu Olívia, abraçando os próprios joelhos, o olhar vagando pelas águas calmas do riacho.
Um silêncio confortável, preenchido apenas pelo farfalhar das folhas rosas e pelo som da água, instalou-se entre nós.
Edwin pegou uma das pétalas que havia caído na manta e a girou entre os dedos. A sua expressão tornou-se mais contemplativa, e o seu olhar adquiriu uma profundidade serena.
— Sabe... — começou o príncipe loiro, a voz carregada de uma sinceridade profunda —, durante vinte e quatro anos, o outono era a minha estação mais odiada. Quando o ar esfriava e as folhas caíam, era o lembrete de que o aniversário da morte da minha mãe se aproximava. Era o lembrete de que, aos olhos do meu pai e do meu irmão, eu era o culpado.
Olívia esticou a mão e tocou o ombro de Edwin, um gesto instintivo de proteção que ela havia desenvolvido desde o primeiro dia em que se conheceram.
Edwin cobriu a mão da irmã com a sua e olhou para nós duas.
— Mas agora... olhando para este campo, sentindo esta brisa... o outono se tornou a minha estação favorita. Ele não é mais a estação da morte. Ele é a estação da renovação. As folhas precisam cair para que a árvore cresça mais forte. Edward e o meu pai eram as folhas podres que envenenavam este solo. Nós... nós três, sobrevivemos à queda deles. E, pela primeira vez na minha vida, eu sinto que a minha mãe, onde quer que esteja, está finalmente em paz.
A menção à Rainha Catharine não trazia mais o gosto amargo do luto. Trazia uma lembrança doce.
— Catharine teria amado você, Olívia — eu falei, a minha voz embargada pela emoção, voltando os olhos para a minha filha. — Ela foi a única pessoa gentil daquele castelo quando eu estava grávida de você. Ela não conhecia o meu segredo, mas ela via a minha dor. Se ela estivesse aqui, se ela soubesse que você e o Edwin se tornariam os escudos um do outro... ela seria a mulher mais orgulhosa deste mundo.
Olívia secou uma lágrima fugaz que escapou pelo canto do olho e escorregou a sua cabeça para descansar no meu ombro. Passei os meus braços ao redor dela, afagando os seus cabelos negros, sentindo o calor vivo de sua pele. O fantasma da bebê que eu tive que abandonar na neve havia finalmente adormecido. A mulher que estava ali era o meu maior triunfo.
— Eu passei anos em Gloucester me perguntando por que o mundo parecia ter um buraco no meio — disse Olívia, a voz suave, como se confiasse o seu maior segredo ao vento de outono. — Eu sentia que me faltava uma raiz. Quando a Princesa Isabel me aceitou como dama de companhia, eu achei que ia encontrar apenas tragédia e monstros neste lugar. E eu encontrei.
Ela ergueu a cabeça e olhou para mim, e depois para Edwin.
— Mas eu também encontrei vocês. As tragédias e as mentiras do Rei Phillip nos quebraram em mil pedaços, é verdade. Só que nós não deixamos que a quebra fosse o nosso fim. Nós pegamos esses pedaços, cheios de pólvora, sangue e segredos, e construímos algo novo. Construímos uma família.
Edwin sorriu, os olhos brilhando com lágrimas de pura felicidade. Ele levantou a sua taça imaginária, erguendo-a para o céu.
— À Rainha Olívia! — brindou ele, com a voz embargada pela alegria. — Que curou um reino com a sua justiça e salvou um irmão perdido com a sua compaixão.
— À nossa Amélia! — completou Olívia, virando-se para mim, segurando as minhas duas mãos. — Que sacrificou a sua voz para que nós pudéssemos ter uma. A mulher que virou um canhão contra o diabo por amor. A verdadeira guardiã de Hereford.
Eu ri, um riso livre e cristalino que subiu pelo meu peito e espantou a última das sombras que ainda ousasse residir em mim.
— A nós — finalizei, apertando as mãos dos dois, puxando Edwin para perto de modo que ficamos os três entrelaçados na manta, sob a chuva de pétalas rosas. — Aos dias bons que lutamos tanto para conquistar.
O vento de outono soprou um pouco mais forte, varrendo o gramado e levando consigo as últimas folhas secas em direção ao riacho.
Ficamos ali até o final da tarde, assistindo o sol se pôr no horizonte de Hereford. As conversas fluíram sobre o futuro, sobre a carta que receberam da Princesa Isabel, agora feliz em Alvernia, sobre as colheitas que seriam as maiores da década, e sobre a paz inquebrável que haviam erguido sobre a justiça e o perdão.
Não havia mais segredos trancados nas pedras. Não havia mais veneno nas taças. O trono de Hereford já não era um símbolo de isolamento e terror, mas sim o coração pulsante de um reino que havia aprendido a amar.
A empregada invisível que um dia lustrou a sujeira da nobreza agora era a mãe da mulher mais poderosa da nação. E, enquanto eu olhava para a minha filha sorrindo e para o príncipe que eu amava como a um filho verdadeiro, eu soube que a tempestade havia passado para sempre.
O inverno escuro e implacável havia acabado. E os bons dias, banhados em sol e pétalas rosas, seriam agora a nossa eterna morada, não mas como um fantasma.
AGRADECIMENTOS
Agradecimentos especiais aos professores: Maurício Magno e Luciana Sarapi Pratti. Eles criaram a ideia da produção de um livro em uma aula de Eletiva.
SOBRE O LIVRO
Este livro foi escrito em uma instituição de ensino (CEEFMTI "Governador Gerson Camata") em uma cidade do interior do Espírito Santo, São Gabriel da Palha. Este livro foi criado em conjunto por 36 autores, ao todo. Todas as ideias foram pensadas e produzidas de forma coletiva. Os professores desenvolveram em uma aula de eletiva um projeto para a produção de um livro independente e hoje, ele está aqui sendo lido por você, leitor. Agradecemos de coração seu interesse pela nossa obra!
Com carinho, Alessandro Marroque Sampaio. Escritor da obra.